Exportações de carne à China: como o Brasil pode driblar nova cota tarifária

A decisão da China de estabelecer uma cota tarifária de 1,1 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira, com aplicação de uma tarifa de 55% sobre os volumes que ultrapassarem esse limite, foi recebida como um sinal negativo, apesar de já esperada. A medida começou a valer nesta quinta-feira, 1º.

Na avaliação da Agrifatto Consultoria, a medida não deve interromper o fluxo de exportações nem representa, necessariamente, uma quebra brusca do comércio. O principal fator de sustentação, segundo a empresa, está na chamada arbitragem internacional, viabilizada pela forte competitividade da carne brasileira. De acordo com Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto, o impacto da cota precisa ser analisado a partir dos volumes efetivamente exportados. 

Espera-se que, em 2025, o Brasil chegue a embarques próximos de 1,4 milhão de toneladas de carne bovina para a China. Isso significa que cerca de 300 mil toneladas ficariam fora do limite inicialmente estipulado. “É uma notícia negativa, sem dúvida, mas é fundamental dimensionar o tamanho do impacto para entender até onde essa medida realmente alcança”, afirma Pimentel. 

Diferença entre arbitragem e triangulação

Nesse contexto, a arbitragem surge como um mecanismo para manter o produto brasileiro presente no mercado chinês. Diferentemente da triangulação — prática não permitida nos acordos comerciais —, a arbitragem ocorre quando um País compra carne brasileira a preços competitivos para abastecer seu mercado interno e, ao mesmo tempo, direciona sua própria produção para outros destinos. 

Segundo Lygia, esse tipo de estratégia foi observado recentemente no comércio com os Estados Unidos. Durante o período em que o Brasil enfrentou tarifas adicionais para exportar carne bovina ao mercado norte-americano, houve um aumento das vendas para o Paraguai, por exemplo. 

Nesse movimento, o país vizinho passou a importar carne brasileira a preços baixos para suprir o consumo interno, enquanto direcionava sua própria produção ao mercado dos EUA, sem gerar desabastecimento nem pressão inflacionária local. “Houve uma arbitragem clara. O Paraguai comprava carne do Brasil, mantinha seu mercado interno abastecido e exportava sua produção para os Estados Unidos. Essa arbitragem não está mais acontecendo para os Estados Unidos, mas começa a fazer sentido em relação à China”, diz Lygia

Diante do cenário, a especialista lembra que países como Argentina, Uruguai e Austrália também operam com cotas no mercado chinês e podem utilizar a carne brasileira como alternativa competitiva para abastecimento doméstico, liberando sua produção para exportação dentro dos limites permitidos.

Carne brasileira é a mais barata do mundo

O fator que viabiliza esse movimento é o preço. Atualmente, entre os grandes exportadores, a carne bovina brasileira é a mais barata do mundo. 

Segundo dados da Agrifatto, o produto brasileiro está, em média, 22% abaixo da média dos dez maiores exportadores globais — grupo responsável por cerca de 90% do comércio internacional de carne bovina. Essa diferença, conforme Pimentel, cria espaço econômico para que outros países comprem carne do Brasil e utilizem sua própria produção para atender mercados mais rentáveis. “A arbitragem só existe porque o Brasil está extremamente competitivo. Se essa diferença de preço diminuir, a arbitragem perde força”, ressalta.

EUA e Ásia: alternativas para escoar a produção

Além da arbitragem, parte do volume excedente pode encontrar destino em outros mercados internacionais. A reabertura do mercado norte-americano sem tarifas adicionais é vista como um ponto positivo para compensar, ao menos parcialmente, a restrição chinesa. 

Paralelamente, países asiáticos como Indonésia, Vietnã e Filipinas aparecem como alternativas para diluir o risco de concentração excessiva em um único destino. Para a Agrifatto, esse movimento exige maior esforço comercial da indústria brasileira, que vinha operando em relativa “zona de conforto” com a China, mas reforça a importância da diversificação de mercados. “Acho que 2026 ainda vai ser um ano muito bom para as exportações. Acho que a gente vai conseguir compensar isso através de arbitragem, através dos Estados Unidos, que voltaram, através de outros mercados que pagam menos, mas que têm o potencial de levar um bom volume”, salienta.

Impacto no mercado interno e oferta de animais

Redução no abate de fêmeas deve ajustar a oferta de animais e sustentar os preços. Foto: Adobe Stock
Olhando para o mercado interno, a especialista ressalta que a absorção desse excedente encontra limites. A deterioração do poder de compra da população, em meio a déficit fiscal elevado, aumento da carga tributária e dificuldades econômicas, reduz a capacidade de consumo de carne bovina aos preços atuais. Ao mesmo tempo, a oferta doméstica tende a ficar mais ajustada nos próximos anos. 

Após um período prolongado de abate intenso de fêmeas — observado desde 2022 e que deve atingir um pico em 2025 —, a expectativa da Agrifatto é de redução gradual da oferta a partir de 2026. A menor disponibilidade de matrizes implica menos bezerros e, consequentemente, menos animais terminados no médio prazo.

Esse movimento já começa a ser sinalizado pelo mercado. O preço do bezerro, segundo Lygia, subiu e se mantém firme, indicando que a reposição está mais escassa. O efeito seguinte tende a aparecer no boi gordo, com um mercado mais ajustado e preços sustentados. “Talvez a gente tenha um pouquinho menos de oferta, consiga manter os preços e volumes exportados, sem grande prejuízo à indústria exportadora, por um ajuste de oferta mesmo”, explica.

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