A cadeia produtiva do mel se consolida como atividade em expansão no Acre e vem se fortalecendo como alternativa de desenvolvimento sustentável, ao conciliar geração de renda, inclusão produtiva e conservação ambiental. A atividade beneficia produtores rurais que, depois de receberem capacitação técnica, se tornam multiplicadores de conhecimento e contribuem para a profissionalização do setor.
Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE mostram que o Acre produziu 9.638 quilos de mel em 2025, movimentando R$ 646 mil em valor de produção. Senador Guiomard lidera o ranking estadual e aparece como principal polo produtor. Em quatro anos, o valor da produção saltou de R$ 351 mil, em 2021, para R$ 646 mil, um crescimento de 84%.
A partir de 2022, políticas públicas estaduais e parcerias institucionais, especialmente no âmbito do Programa REM Acre Fase 2, passaram a incluir a apicultura entre as cadeias produtivas prioritárias. As ações envolveram capacitação de produtores, aperfeiçoamento do manejo e do beneficiamento e fortalecimento de associações e cooperativas, com foco na qualidade e no acesso aos mercados.
No último fim de semana, Rio Branco recebeu a 1ª Feira do Mel, realizada no Horto Florestal. O evento reuniu produtores, pesquisadores, instituições de ensino e órgãos públicos em uma iniciativa voltada ao fortalecimento da apicultura e da meliponicultura no estado. A chefe do Núcleo da Cadeia Produtiva do Mel da Secretaria de Estado de Agricultura, Rúbia Lima, afirmou que a feira é resultado da articulação entre diferentes instituições.
A proposta partiu da ONG Mãos Que Ajudam. “A ONG Mãos Que Ajudam nos procurou e nós abraçamos a ideia. A partir dessa iniciativa, unimos esforços com a Seagri, a Ufac, o Ifac, prefeituras e outros órgãos parceiros para realizar esta feira”, disse Rúbia.
Segundo a gestora, o trabalho de estruturação da cadeia permitiu o georreferenciamento dos produtores e ampliou a presença da atividade no estado. “Hoje contamos com cerca de 250 produtores cadastrados em todo o Acre. A atividade está presente em aproximadamente 15 municípios, embora cerca de 12 estejam mais ativos atualmente”, explicou.
Rúbia reconhece que nem todos os produtores conseguem participar de todas as ações por causa dos custos, e avalia que os recursos são modestos em comparação aos destinados a outras cadeias. Ainda assim, vê resultados. “Procuramos fazer muito com os recursos disponíveis. O importante é que seguimos avançando”, concluiu. Para ela, o fortalecimento do setor depende da atuação conjunta, no mesmo modelo de cooperação das colmeias.
A pesquisadora do Inpa Gislene Almeida Carvalho Zilse, autoridade no setor, destacou que eventos como a feira são necessários porque impulsionam a economia, a agricultura familiar e a divulgação de conhecimento. Segundo ela, os encontros permitem que produtores, órgãos fiscalizadores, instituições de pesquisa e gestores públicos identifiquem gargalos e discutam regulamentações.
Gislene também chamou atenção para a sanidade das colônias. Muitos criadores não sabem que as abelhas também adoecem e que uma ferramenta usada em uma caixa pode levar microrganismos para outra se não houver cuidado. Segundo a pesquisadora, essas informações são fundamentais para melhorar a produção.
Além do aspecto econômico, as abelhas têm papel essencial no equilíbrio ambiental, pela polinização e pela reprodução de inúmeras espécies vegetais. Diferentemente de outras atividades produtivas, a apicultura e a meliponicultura exigem preservar e ampliar a vegetação, e quanto mais recursos florais existirem, melhores as condições para as abelhas. É uma atividade que alia renda e conservação.
A feira também atraiu famílias, estudantes e consumidores. Elisson Reis foi com a família e destacou que as crianças puderam ver de perto as abelhas e entender o manejo. Rubenita Barbosa, que já consome mel na alimentação e como alternativa caseira para sintomas gripais, ressaltou a importância de valorizar os produtores locais.
O avanço do setor, refletido no aumento do número de produtores beneficiados e no crescimento da produção, mostra o potencial da apicultura como vetor de desenvolvimento sustentável. A atividade diversifica a renda das famílias rurais, fortalece os serviços ambientais prestados pelas abelhas e valoriza a floresta em pé.



