De tudo um pouco

Flores e tiros para o alto: façamos a paz com cadernos, canetas e livros, e não com pistolas, fuzis e granadas

“Eu comecei a apanhar sem motivos, por gostar de um gênero musical diferente do dele, por usar um batom da cor que ele não gostava e até por cumprimentar as pessoas na rua”, relata. “Quando fui contratada pelo banco, comecei a ganhar mais do que ele e isso virou mais um motivo para ele me bater. Como estava há pouco tempo no trabalho, eu não contava para ninguém por vergonha e por medo de perder o emprego. Então, ficava arrumando desculpas para disfarçar a marca da sola do sapato no meu rosto, o meu braço fraturado e até mesmo o meu pé quebrado.” (MRF, 33 anos, bancária). Narrativa verídica, em reportagem do site globo.com, em 16/03/2018.  Por obra e graça de Deus, essa história não acabou em mais um assassinato ocorrido dentro de casa. O agressor não possuía uma arma.

Já a Dandara, não teve a mesma “sorte”.

Faltavam apenas dois ou três meses para Dandara pegar seu segundo filho nos braços. Mas a violência não permitiu. A jovem de 21 anos foi baleada no rosto dentro da própria casa na manhã desta segunda-feira, em Padre Miguel, Zona Oeste do Rio de janeiro. Órfão, o bebê, salvo numa cesariana de emergência, luta pela vida no hospital. A irmã dele, de 2 anos, ainda não entende por que sua mãe foi brutalmente assassinada”. (jornal O Globo, 13/03/2018).

Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, vítima de arma de fogo. Na maioria das vezes, o assassino é o próprio marido ou alguém muito próximo da família. E segundo o site Relógios da violência, do instituto Maria da Penha, a cada 7,2 segundos uma mulher é vítima de violência física no Brasil e a cada 22,5 segundos, uma mulher é vítima de espancamento e tentativa de estrangulamento.  Quantas dessas mulheres estariam aumentando as estatísticas de assassinato doméstico se esses covardes tivessem um revólver em casa? Eles não teriam para quem pedir desculpas no dia seguinte. Elas estariam mortas!

Quantas brigas de bar e em saídas de boates, grande parte delas, motivadas pelo excesso de álcool e autoafirmação juvenil, acabariam não mais em alguns hematomas na face e sim em brutais assassinatos? Quantos adultos bobões não mais contariam faceiros, histórias de suas brigas épicas quando jovens? Se todos tivessem direito a uma arma na cintura, o famoso “te pego lá fora”, viraria “te mato na saída”.

Para que se tenha uma ideia do quão patife é o discurso dos que defendem o direito a todos andarem armados por aí, sob o argumento calhorda, de que “o bandido ao imaginar que eu possa estar armado, não mais me assaltará”, no ano de 2016, tivemos no Brasil 62.517 mortes violentas intencionais. Mas, dessas, apenas 2.514 foram mortos em assaltos, o famoso latrocínio (roubo seguido de morte). E esse número é ainda menor quando buscamos apenas os que foram mortos dentro da própria casa em um eventual assalto. Insignificante até. No Paraná, por exemplo, apenas 48 pessoas foram vítimas de latrocínio no ano de 2018. Menos da metade, dentro de casa.

Não deixemos que a simples vontade que alguns têm de se sentir mais valentes por portarem uma arma na cintura, somada aos milhões de dólares que a indústria bélica fatura anualmente, sejam responsáveis por um mar de sangue em nosso país. Quantas Dandaras teremos que perder para entendermos de uma vez por todas, que o discurso de buscar a paz através das armas é de um cinismo perverso?

Ignoremos, pois, os frios números daqueles tecnicistas, que, na verdade, o que desejam é comprar uma arma. E por conta disso, alardeiam estatísticas covardes, camufladas de sangue de milhares de Dandaras Brasil afora. Busquemos a paz através de cadernos, canetas e livros e não de pistolas, fuzis e granadas.

Fiquem na paz do nosso senhor Jesus Cristo e até a próxima semana.