Guilherme de Carvalho: ‘Por que celebrar a Páscoa?’

A cada semana os cristãos se reúnem nas suas igrejas para celebrar a morte e a ressurreição de Jesus em cultos e missas, mas poucos sabem por que isso se faz aos domingos. Há cerca de 1,5 mil anos, um escritor cristão antigo, chamado Eusébio de Alexandria, ofereceu uma das mais claras explicações disso:

“O santo dia do domingo é a comemoração do Salvador. Chama-se dominical porque ele é o Senhor dos dias. Com efeito, antes da paixãodo Senhor ele não se chamava domingo, mas sim primeiro dia. Foi neste dia que oSenhor deu início à criação do mundo, e no mesmo dia deu ao mundo as primíciasda ressurreição. Eis porque esse dia é o princípio de todo o bem: princípio dacriação do mundo, princípio da ressurreição, princípio da semana.”

O primeiro dia da semana sempre houve, desde que se começaram os calendários, nas profundezas pré-históricas da jornada humana. Mas a Páscoa cristã lhe trouxe um sentido completamente diferente. O corpo morto de Jesus descansara por todo o Sábado judaico – um dia em que os judeus tinham o dever religioso de não trabalhar – e, no domingo de madrugada, algumas mulheres foram ao túmulo para ungir o seu corpo. Voltaram contando uma história incrível: Jesus teria ressuscitado dos mortos! Alguns discípulos homens correram para fazer a checagem – o testemunho das mulheres não contava muito na época – e voltaram confirmando a narrativa. Mas não vamos discutir por ora os detalhes e mesmo a confiabilidade histórica do relato; outro assunto nos chama nesse momento: a transformação do calendário.

Na vida e na morte de Cristo demonstrou-se uma bondade genuína e simultaneamente invencível, para o desespero dos cínicos (desespero: porque o alívio do cínico reside na inexistência de uma prova da bondade)

Como notou Eusébio, o mundo foi criado no primeiro dia, eDeus descansou de suas obras no sétimo dia, o Sábado divino. Agora as coisas seinvertem: Cristo descansa por todo o Sábado Santo de sua obra na cruz, ao mesmotempo construindo uma história de obediência e serviço diante de Deus, mastambém colocando um ponto final no mundo como o conhecíamos e, em parte, aindaconhecemos: um mundo no qual quem manda é Anás, Pilatos, Herodes e César. Ummundo no qual cada um cuida da sua vida e em que o bem sempre é derrotado.

Se Cristo foi derrotado? Sim, e não; sua impotência diante dospoderosos deste mundo, e até mesmo para convencer plenamente seus própriosdiscípulos, é um fato notório e inegável. No entanto, seu sofrimento diante daforça e das dinâmicas corruptas da ordem presente era, na verdade, uma identificaçãomisericordiosa, um compartilhamento da carga terrível. Jesus estavavivendo o que vivemos, mas com uma diferença profunda: ele manteve até o fim asua bondade, mesmo com os inimigos; a sua amizade com aquela hordadecepcionante de alunos; e a sua fé em Deus. Em tudo isso, sua alma não azedou.Essa vitória moral e espiritual é descrita com a linguagem mais forte possívelno Evangelho de João: “O Príncipe deste mundo foi expulso!”

Nesse sentido, como ensinaria o apóstolo Paulo em sua primeira Carta aos Coríntios, cerca de 15 anos depois dos eventos pascais, a cruz é a fraqueza e a tolice de Deus, mas a sua fraqueza “é mais forte do que os homens” e a sua tolice “é mais sábia do que os homens”. O caso é que na vida e na morte de Cristo demonstrou-se uma bondade genuína e simultaneamente invencível, para o desespero dos cínicos (desespero: porque o alívio do cínico reside na inexistência de uma prova da bondade). E isso foi, num sentido supremo, nada menos que o fim do mundo. A sociedade humana sem Deus segue em frente, mas foi humilhada e condenada pela bondade de Cristo.

O leitor leigo ou carente de imaginação religiosa pode terexatamente essa impressão ao ouvir a história, mas em assuntos divinos aprevisibilidade seria provavelmente um indício de farsa. Não faz todo o sentidoque Deus tenha operado sua graça no mundo através de um surpreendente paradoxo?

Mas a história não acabou aí. O testemunho consistente dasmulheres, dos discípulos e da Igreja antiga foi de que a mão de Deus finalmentetirou Jesus do túmulo, no primeiro dia da semana! Não se trata, aqui, de ummero evento sobrenatural ou incomum, ou de uma violação das leis naturais, masde algo muitíssimo mais radical: “Eis que faço novas todas as coisas!” “Vi novos céus e nova terra!” O que se anuncia é o recomeço de todas as coisas, deum mundo completamente novo!

E aqui retomamos a inversão supramencionada: Deus criou o mundo no primeiro dia, e descansou no sétimo; mas agora, Cristo descansa de sua obra salvadora no sábado, e se levanta para criar um novo mundo no primeiro dia da semana: doravante, ele será chamado Dies Dominica, ou domingo!

Deus criou o mundo no primeiro dia, e descansou no sétimo; mas agora, Cristo descansa de sua obra salvadora no sábado, e se levanta para criar um novo mundo no primeiro dia da semana

Foi a Páscoa cristã que deu início aos domingos! Por issonão faz sentido para o cristão cultuar nos domingos, mas ignorar a Páscoa anual:o próprio domingo existe como celebração semanal daquele dia, há quase 2 milanos, no qual o mundo renasceu. O primeiro dia da semana, no qual Cristoressuscitou, foi um domingo cósmico, o próprio centro da história. E desse domingo é que nasceram todos os domingos.

Mantendo a conexão com a igreja cristã antiga e com as realidades contemporâneas, a nossa pequena igreja evangélica estabeleceu uma festa pascal em quatro atos: o jantar pascal em família ou em pequenos grupos, na quarta e na quinta à noite, que rememora a Última Ceia de Jesus com os discípulos; o serviço Tenebras, na sexta-feira à noite, que lembra todas as estações nas últimas horas de Jesus, sua paixão, morte e sepultamento; uma jornada devocional no Sábado Santo, na qual meditamos e oramos sobre o significado da cruz de Cristo; e, no domingo de madrugada, o Culto da Ressurreição, celebrando o Dies Dominica!

O primeiro dia da semana, no qual Cristo ressuscitou, foi um domingo cósmico, o próprio centro da história. E desse domingo é que nasceram todos os domingos

O que significa hoje uma festa como essa? Byung-Chul Han,inspirando-se em Hartmut Rosa, fala sobre os rituais como eixos de ressonância,que nos fazem sincronizar coletivamente. Para isso fazemos calendários: parasincronizar nos gestos, pensamentos, corações e atenção, e isso nos faz estarjuntos.

Mas, se a história da Páscoa for verdadeira – e creio que ela é –, algo mais do que a nossa sincronia social e afetiva acontece quando a celebramos: o que vivemos nesses dias, e domingo após domingo, é uma sincronia com uma outra ordem de vida, fundada por Cristo, e com um novo mundo que ele prometeu trazer à luz. Tendo o seu túmulo vazio como fiador dessa promessa, nos preparamos e ensaiamos cheios de alegria para essa esperança: o alvorecer do primeiro dia em um novo mundo que se aproxima.

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