Inteligência artificial avança sobre o campo e divide produtores entre milhões e tradição

A expansão acelerada da inteligência artificial está criando uma nova corrida global por infraestrutura, e os efeitos já começam a ser sentidos no campo. Nos Estados Unidos, empresas de tecnologia passaram a disputar grandes áreas rurais para instalar data centers, colocando produtores diante de uma escolha difícil: vender propriedades por valores milionários ou preservar terras construídas ao longo de gerações? O fenômeno foi analisado em reportagem publicada pelo portal norte americano Drovers.

A demanda por data centers cresceu junto com a popularização da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais. Segundo a reportagem, cerca de 87% dos aproximadamente 4 mil data centers existentes nos Estados Unidos ainda estão localizados em áreas urbanas, mas o cenário tende a mudar. Entre os futuros empreendimentos previstos, 67% devem ser instalados em regiões rurais, onde existe maior disponibilidade de grandes áreas e possibilidade de expansão da infraestrutura elétrica.

Na prática, a mudança cria uma nova disputa pelo uso da terra. Áreas tradicionalmente destinadas à agricultura e à pecuária passaram a interessar diretamente às gigantes da tecnologia, que possuem capacidade financeira para negociar propriedades por valores muito superiores aos praticados normalmente no mercado rural. O avanço dos empreendimentos também levanta questões sobre segurança alimentar, disponibilidade de energia, uso da água e os impactos sobre comunidades que dependem da atividade agropecuária.

Um dos exemplos apresentados pela Drovers é o projeto Hyperion, da Meta, na Louisiana, que ocupa aproximadamente 3.650 acres, o equivalente a cerca de 1.477 hectares. A área é superior a quatro vezes o tamanho do Central Park, em Nova York. O investimento estimado chega a US$ 50 bilhões, dimensão que ajuda a explicar a crescente pressão sobre propriedades rurais próximas de regiões com disponibilidade energética e infraestrutura adequada.

A questão energética também está no centro do debate. Segundo os dados reunidos pela reportagem, um único data center pode consumir eletricidade equivalente à demanda de aproximadamente 100 mil residências, enquanto instalações maiores podem exigir volumes ainda mais expressivos. Projeções do MIT e da Goldman Sachs Commodities Research apontam que os data centers representaram mais de 4% do consumo de eletricidade dos Estados Unidos em 2023, percentual que pode chegar a 9% até 2030.

A demanda do setor também deve crescer rapidamente nos próximos anos. De acordo com as projeções citadas na reportagem, o consumo de energia dos data centers pode praticamente triplicar entre 2025 e 2027, chegando a aproximadamente 95 gigawatts, volume comparável ao consumo de cerca de 71 milhões de residências. O uso de água para resfriamento dos equipamentos é outro ponto de preocupação, especialmente em regiões onde os recursos hídricos já são limitados.

Apesar das ofertas milionárias, alguns produtores decidiram manter suas propriedades. Na Pensilvânia, o agricultor Mervin Raudabaugh recusou uma proposta de US$ 15 milhões por aproximadamente 261 acres. Em vez de vender para desenvolvedores de data centers, ele negociou a área por um valor menor com uma entidade voltada à preservação de terras agrícolas, garantindo a continuidade da produção.

Outro caso citado ocorreu no Kentucky, onde uma família ligada à pecuária recusou US$ 26 milhões por cerca de 600 acres. Para os produtores, a propriedade representa mais do que um ativo financeiro. A terra está associada à história familiar, à produção e à continuidade da atividade rural, mostrando que nem mesmo propostas consideradas extraordinárias são suficientes para convencer todos os proprietários.

Também existem produtores que optaram pela venda. Na Pensilvânia, 96 famílias negociaram aproximadamente 1.700 acres por cerca de US$ 586 milhões com desenvolvedores de data centers. Entre os negócios estava uma propriedade suinícola de 89 acres, vendida por aproximadamente US$ 22 milhões. Governos locais também veem nesses projetos uma oportunidade de ampliar a arrecadação tributária, embora exista debate sobre a quantidade de empregos permanentes gerados depois da conclusão das obras.

O movimento ainda está concentrado nos Estados Unidos, mas pode antecipar discussões que chegarão ao agronegócio brasileiro. A expansão da inteligência artificial exige terra, energia, água e redes de transmissão, colocando infraestrutura tecnológica e produção rural em uma mesma disputa por espaço e recursos. No Brasil, os data centers ainda avançam em escala menor, mas o crescimento da IA e da computação em nuvem pode aumentar essa demanda nos próximos anos, abrindo um debate sobre uso do solo, segurança energética, recursos hídricos e futuro das comunidades rurais.

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