Irã, Groenlândia e Venezuela: como as tensões geopolíticas impactam o agro do Brasil?

As tensões geopolíticas que se intensificaram neste início do ano em diferentes partes do mundo reforçam o que escreveu, no primeiro dia de 2026, o colunista do Agro Estadão e ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral: “em vez de previsibilidade, os exportadores enfrentam um cenário volátil”.

Protestos no Irã acompanhados de ameaças de intervenção dos Estados Unidos, instabilidade política na Venezuela e a movimentação de tropas europeias na Groenlândia formaram um cenário que, embora distante do campo brasileiro, segundo especialistas, pode ter reflexos diretos nos custos de produção.

O impacto maior apontado para o agro não está no risco de desabastecimento, mas na pressão sobre os preços dos insumos, principalmente os fertilizantes. Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome. 

Segundo Edeon Vaz, diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (Adecon), essa dependência torna o Brasil sensível a conflitos internacionais, sanções econômicas e restrições comerciais. “Esse é o nosso calcanhar de Aquiles. Qualquer restrição de oferta tende a se refletir em aumento de preços”, explica.

Vaz ressalta, no entanto, que, apesar de o Brasil ser um grande importador de fertilizantes, os maiores fornecedores são Rússia e Ucrânia, que, mesmo em guerra, seguem abastecendo seus mercados compradores. 

No caso do Irã, o olhar se volta para a ureia, porém, o impacto direto sobre o abastecimento brasileiro é limitado. Dados da Scot Consultoria mostram que, em 2025, apenas 2,4% da ureia importada pelo Brasil teve origem iraniana — o equivalente a 0,5% do total de fertilizantes importados pelo País.

Ainda assim, a situação no País preocupa por outro motivo. “O Irã é um grande produtor e está no Oriente Médio. Qualquer risco de conflito em maior escala nessa região já leva a uma valorização do petróleo e de commodities como a ureia”, destaca a Scot, em boletim.

Inclusive, esse movimento já foi observado recentemente. Durante a escalada do conflito entre Israel e Irã, em 2025, o preço da ureia no mercado internacional chegou a subir 25%. Agora, de acordo com levantamento da consultoria, apenas o anúncio da tarifa de 25% pelos Estados Unidos sobre países que mantêm negócios com o Irã fez os preços futuros da ureia granulada livre a bordo (FOB), no Oriente Médio, subirem 3,7%.

Para Edeon Vaz, esse tipo de movimento reforça a principal preocupação do setor. “A maior preocupação não está no transporte, está no preço do produto. À medida que você restringe fornecedores, quem tem o produto aumenta o valor”, afirma.

Na avaliação do consultor portuário Frederico Bussinger, o Estreito de Ormuz permanece como um dos principais pontos de atenção do ponto de vista energético global. Segundo ele, cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo passa diariamente pela região. “Se houver uma interrupção relevante, o impacto sobre o fornecimento de petróleo será imenso, com reflexos imediatos sobre preços e custos logísticos”, afirma.

Logística segue funcionando, mas custos podem subir

Do ponto de vista logístico, o cenário é considerado menos crítico. Mesmo em caso de tensões no Estreito de Ormuz — rota estratégica para o comércio global, localizada na margem Norte do Irã —, existem caminhos alternativos, ainda que mais longos. “Essas rotas alternativas aumentam o custo do frete, mas não inviabilizam a importação”, explica Vaz. 

Ele lembra que o transporte marítimo segue sendo o modal mais barato do comércio internacional. “Mesmo com aumentos de 10% ou 20%, como vimos na pandemia, o frete marítimo não impede as importações”, ressalta.

Bussinger pondera que, embora a Groenlândia ainda não represente um gargalo para o comércio agrícola brasileiro, a região ganhou relevância estratégica. “A ligação entre o Atlântico e o Pacífico passando pelo Ártico já é uma realidade, apesar das dificuldades de navegação”, observa, destacando que essas rotas fazem parte de uma reconfiguração gradual do comércio marítimo global.

Tensões na Groenlândia e Venezuela

Quanto a outras regiões de tensão, como a Groenlândia, o impacto direto sobre o agro brasileiro tende a ser pequeno. “O nosso escoamento se dá pelo Atlântico. Não há comprometimento direto”, afirma Edeon. Ainda assim, ele reconhece que um cenário de múltiplos conflitos globais pode gerar instabilidade e pressionar os custos logísticos de forma generalizada.

Já no caso da Venezuela, o impacto para o Brasil é considerado mínimo, já que o País vizinho não fornece insumos agrícolas relevantes ao mercado brasileiro, nem desponta como importante comprador dos nossos produtos agrícolas. “A Venezuela não é problema nesse sentido”, explica Vaz.

Para Bussinger, é importante lembrar que a logística é um meio, não um fim. Segundo ele, mesmo em cenários de tensão geopolítica, a reorganização das rotas depende antes da reconfiguração das cadeias globais de suprimento. “Hoje, o principal parceiro comercial do agro brasileiro é a Ásia, e esse fluxo dificilmente seria afetado por tensões no Oriente Médio, no Ártico, na Venezuela ou no Caribe”, explica. De acordo com o consultor, as exportações do agro brasileiro seguem majoritariamente pela rota do Cabo da Boa Esperança, no sul da África do Sul, inclusive aquelas originadas no Arco Norte.

Em um cenário de incertezas geopolíticas, especialistas reforçam que o agro brasileiro não enfrenta, neste momento, risco de ruptura no abastecimento, mas deve se preparar para custos mais altos. “O mercado já começa a precificar esses riscos”, resume a Scot Consultoria, destacando que, para o produtor, o recado é acompanhar de perto os desdobramentos internacionais e os movimentos de preços.

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