Medicamentos usados por Bolsonaro registram risco de alucinações e confusão mental, apontam bulas

Efeitos neuropsiquiátricos da pregabalina e da sertralina, agravados por outras medicações em uso, podem explicar episódio relatado pelo ex-presidente na audiência de custódia.

As substâncias citadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro durante sua audiência de custódia, nas quais atribuiu episódios de “paranoia” e “alucinação”, possuem em suas bulas uma série de reações adversas capazes de comprometer a consciência, a percepção e a orientação do paciente. Segundo a documentação médica apresentada pela defesa, os efeitos descritos são consistentes com o quadro relatado pelo ex-presidente. Bolsonaro mencionou o uso de pregabalina e sertralina, medicamentos que, quando associados a outros moduladores do sistema nervoso central, podem apresentar interações graves.

De acordo com boletim assinado pelos médicos Cláudio Birolini e Leandro Echenique, Bolsonaro apresentou “quadro de confusão mental e alucinações” possivelmente desencadeado pela pregabalina. O medicamento teria sido incluído no tratamento sem o conhecimento da equipe que tradicionalmente o acompanha. Os médicos destacam que a substância mantém interação significativa com outros remédios que estavam em uso contínuo pelo ex-presidente, como gabapentina e clorpromazina, aumentando o risco de efeitos neuropsiquiátricos.

O documento relata que essa combinação pode resultar em “confusão mental, desorientação, coordenação anormal, sedação, transtorno de equilíbrio, alucinações e transtornos cognitivos”. As bulas dos medicamentos confirmam a possibilidade desses efeitos, especialmente quando administrados de forma associada. No caso da pregabalina, o potencial de causar distorções perceptivas e prejuízo cognitivo é amplamente documentado, incluindo a chance de episódios de agressividade, despersonalização, perda de consciência e comportamento desorganizado.

A lista de efeitos adversos da pregabalina abrange desde sintomas muito comuns, como dor de cabeça, tontura e sedação, até reações incomuns, como alucinações, mudanças de humor e agitação psicomotora. Há ainda relatos raros de crises de pânico, estupor, hipocinesia e até ideação suicida. Segundo especialistas, o mecanismo de ação do medicamento, modulando a liberação de neurotransmissores excitatórios, explica a possibilidade de prejuízo direto na cognição e no equilíbrio emocional.

A sertralina, por sua vez, também registra efeitos neuropsiquiátricos relevantes, incluindo episódios de euforia, confusão mental, alucinações e até distúrbios psicóticos em casos raros. Como antidepressivo do grupo dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, o medicamento pode desencadear síndrome serotoninérgica quando associado a outras substâncias que modulam o sistema nervoso central. Essa síndrome é caracterizada por delírios, agitação intensa e alterações graves no estado mental.

Embora não tenha sido apontada como causa principal do episódio, a sertralina, combinada com pregabalina, gabapentina e clorpromazina, teria aumentado a instabilidade neuroquímica do paciente, ampliando a probabilidade de reações agudas. As bulas também registram efeitos como agressividade, síncope, distúrbios de marcha, movimentos involuntários e alterações visuais, que podem ocorrer mesmo em doses terapêuticas.

Durante a audiência de custódia, realizada por videoconferência neste domingo, 23, Bolsonaro afirmou à juíza auxiliar Luciana Sorrentino que tentou abrir sua tornozeleira eletrônica porque acreditou estar sendo monitorado por uma “escuta”. Ele atribuiu a sensação de perseguição à combinação inadvertida de dois medicamentos prescritos por médicos diferentes. A magistrada registrou que o ex-presidente relatou “alucinação” e “certa paranoia” provocadas pela interação medicamentosa inadequada.

Bolsonaro explicou que utilizou um ferro de solda para tentar abrir a tampa do equipamento entre a noite de sexta-feira, 21, e a madrugada do sábado, 22. Disse que interrompeu a tentativa por volta da meia-noite e que nenhum dos familiares presentes na residência, sua filha, o irmão mais velho e um assessor, presenciou a ação. Ele negou qualquer intenção de fuga e afirmou que “não houve rompimento da cinta” da tornozeleira.

O ex-presidente também confirmou que ainda mantém em casa o ferro de solda utilizado na tentativa de manipulação do equipamento. A informação foi incluída na ata da audiência, que detalha a explicação dada por Bolsonaro sobre o episódio. Sua defesa alega que o comportamento decorreu exclusivamente do efeito colateral dos medicamentos.

Ao final da audiência, Luciana Sorrentino decidiu manter a prisão preventiva. A magistrada afirmou que Bolsonaro não relatou abusos policiais durante o cumprimento da ordem judicial e que os elementos apresentados pela equipe médica não afastam, por si só, os fundamentos jurídicos que embasam a medida cautelar.

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