Pela hora da morte

Nem mesmo a crescente onda de assassinatos no Acre beneficia funerárias, segundo empresários

Ao contrário do que pode supor a maioria dos acreanos, o avanço da criminalidade, com o consequente aumento dos casos de homicídio no estado, não significa lucro certo para os empresários que atuam no comércio de serviços funerários. Na contramão da tendência nacional, o setor tem sido prejudicado por um acordo feito com a prefeitura de Rio Branco.

O pacto consiste em frear a concorrência a partir da proibição de funcionamento de novas empresas do ramo, tendo como contrapartida a obrigação, por parte dos empreendedores, de repassar 20% dos ganhos ao Poder Público Municipal. Esse dinheiro, segundo eles, é usado no custeio das despesas com caixão, velório e sepultamento dos mais pobres.

Sob a garantia de não ter o nome revelado, um empresário do setor disse ao Diário do Acre que a maioria das mortes violentas na capital é composta de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Despesas com caixões, velórios, traslados e até sepultamento recaem sobre as funerárias, conforme o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado com a prefeitura.

Para cada família que paga pelos serviços, dez recorrem pedem auxílio/Internet

Em Rio Branco atuam quatro funerárias. Cada uma delas é obrigada a dar três plantões semanais, de 24 horas cada um. Se nesse intervalo de tempo uma pessoa de baixa renda (o que significa ganho mensal inferior a R$ 230 por pessoa) morrer de causas naturais ou for vítima da violência, as despesas recaem sobre a funerária plantonista.

“Quase não temos lucros, apesar do que muitos imaginam. Para cada morte em que a família arca com as despesas fúnebres, há outras dez dos que, literalmente, não têm onde cair morto. Ai, é torcer para que o plantão não seja nosso”, desabafa.

Em recente entrevista à imprensa, a secretária de Assistência Social de Rio Branco, Nubia Nusis, afirmou que entre o começo de janeiro e dia 24 de abril deste ano, pelo menos 255 famílias solicitaram o auxílio-funerário à prefeitura.

O custo repassado às funerárias foi de R$ 750 mil – ou cerca de R$ 2,9 mil por sepultamento.

Só em 2018, segundo o empresário, a Assistência Social beneficiou 817 famílias.

“Como é que podemos ter lucro desse jeito? A saída é mudar de ramo. A violência só cresce, mas os que morrem não pagam a conta”, concluiu o empresário.

Na contramão do mercado nacional

Segundo o site InfoMoney, a estimativa de faturamento das funerárias no país era de R$ 10 milhões até o fim de 2018, com crescimento médio de 20% ao ano.

O site apurou que o setor funerário tem crescido no Brasil, de acordo com estimativa do Sindicato dos Cemitérios Particulares do Brasil (Sincep). O mercado obteve faturamento de R$ 7 bilhões nos últimos anos, empregando de forma direta mais de 50 mil pessoas.

No Acre, porém, o Poder Público continua sendo o principal entrave ao crescimento da economia.