Há quem diga que entender a política acreana é um exercício de paciência. Eu diria que é quase um teste de sanidade. Especialmente quando se olha para o campo da direita, que em 2018 surfou uma onda avassaladora e, poucos anos depois, deixou à mostra algo que sempre esteve ali: a incoerência.
A eleição de Bolsonaro trouxe consigo uma legião de novos “convertidos” aos valores de Deus, pátria e família. Bonito no discurso, eficiente no marketing e, como se viu depois, bastante flexível na prática. Alguns trocaram de lado com a mesma facilidade com que se troca de camisa num domingo quente em Rio Branco. Aqueles que ontem apontavam o dedo hoje fazem coro com quem juravam combater. Não vou citar nomes. Nem precisa. No Acre, como em qualquer lugar pequeno, todo mundo sabe de quem estamos falando.
Mas nem tudo virou caricatura. Na contramão dessa turma que descobriu a utilidade política da amnésia seletiva, há quem tenha permanecido firme. Gente que, goste-se ou não, mantém uma linha. No Senado, Marcio Bittar continua sendo um dos poucos a sustentar a defesa das liberdades individuais e a crítica aberta ao governo federal. Na Câmara, o deputado Coronel Ulysses segue na mesma trilha, com um perfil de oposição que não tenta agradar a plateia errada. Na Assembleia Legislativa, Arlenilson Cunha talvez seja hoje um dos exemplos mais claros de alguém que resolveu não brincar de esconde-esconde ideológico.
E aqui entra um ponto curioso. Em tempos de políticos que fogem de rótulos como o diabo foge da cruz, Arlenilson fez o oposto. Publicou aquilo que pensa. Família, fé, liberdade, responsabilidade. Um conjunto de princípios que, até pouco tempo atrás, era tratado como exagero retórico de campanha.
Ao expor seus pilares, ele faz algo que anda em falta: se compromete publicamente com uma linha de atuação. Diz de onde vem, no que acredita e para onde pretende ir. Parece básico. E é. Mas, no padrão atual, isso virou exceção. A política brasileira, e a acreana em particular, se especializou em discursos genéricos, cuidadosamente moldados para não desagradar ninguém e, principalmente, para não dizer nada.
É evidente que princípios no papel não garantem virtude na prática. A história recente está cheia de exemplos de quem prometeu o céu e entregou um puxadinho mal feito. Mas também é verdade que quem não diz o que pensa dificilmente fará algo coerente quando tiver poder. A omissão, nesse caso, não é neutralidade.
O Acre, que já viu de tudo um pouco, não precisa de mais políticos que falem bonito e ajam conforme o vento. Precisa de gente previsível no melhor sentido da palavra. Que vote como fala. Que sustente o que defende.
Porque, no fim das contas, o problema nunca foi a divergência. Democracia vive disso. O problema sempre foi a conveniência disfarçada de moderação. E disso, convenhamos, o eleitor já está bem servido.
Se há um recado a tirar, ele é simples e até meio óbvio, embora muitos fingem não entender. Já não há espaço para indecisão, nem para discursos que mudam conforme o humor da plateia. O jogo está mais claro, e o eleitor também.
É disso que o Acre precisa. Menos teatro. Mais posição.


