PAIXÃO NACIONAL

O futebol e seus paradoxos

Entre todas as paixões nacionais, o futebol é a que mais contagia, a que mais apaixona e arrasta multidões. A recepção que a torcida do Flamengo deu aos jogadores que vinham de Lima, no Peru, trazendo na bagagem o título de Campeão das Américas, é apenas mais uma confirmação disso. Uma multidão transformou a principal Avenida do Centro do Rio de janeiro em um mar vermelho e preto. Não estavam ali protestando contra o aumento disso ou daquilo, nem para enaltecer ou achincalhar esse ou aquele político. Estavam pura e simplesmente pela paixão a um clube de futebol.

Av. Presidentes Vargas durante recepção pelo título da Libertadores/Foto: reprodução

Foi o futebol que fez o Brasil ficar conhecido mundo afora. Quase todo brasileiro tem um time do coração. É difícil encontrar um que não entenda pelo menos um pouquinho sobre o esporte mais popular do país. Alguns acham que sabem mais que os técnicos. Me divirto vendo “torcedores de sofá” dando verdadeiras aulas táticas de como o seu time ou seleção deveria jogar. Para essas pessoas, geralmente o técnico que comanda seu time do coração não sabe de nada. O nome disso é paixão. Existe, porém, uma linha muito tênue entre a paixão e o fanatismo.

Pelé disse certa vez que “Quanto mais difícil é a vitória, maior é a felicidade de ganhar”. E eu completo com a seguinte indagação: qual a graça de ganhar se eu não puder provocar aquele tio, amigo ou vizinho que torce pelo time derrotado? A triste realidade de alguns estados do país que só realizam jogos de futebol com torcida única para que torcedores de times opostos não se matem, é a demonstração cabal da total falência do Estado e descrença na humanidade. Como pode alguém agredir outra pessoa simplesmente por torcer por um time diferente do seu?

Lembro-me bem, quando menino, de uma final entre Flamengo e Vasco que foi decidida aos 44 minutos do segundo tempo, em favor do clube cruzmaltino por um jogador que era chamado de Cocada. Na verdade, Cocada, que era lateral direito reserva do Vasco da Gama, entrou aos 43 minutos do segundo tempo, fez o gol aos 44 e foi expulso aos 45 por tirar a camisa na hora da comemoração. Eu que sou flamenguista e estava presente no Maracanã, obviamente fui para casa triste naquela noite. Mas achei muito engraçado e trago até hoje na memória o fato de que na manhã seguinte, logo cedo ao ir para aula, me deparei com dezenas de torcedores vascaínos distribuindo cocadas nos semáforos e calçadas em alusão ao título da noite anterior. Esse é o espírito, essa é a graça.

Ouvi algumas vezes que “estádio de futebol não é lugar para criança”. Quanta bobagem! E por que não? Estádio de futebol é um programa maravilhoso para todas as idades. Passei a infância indo ver o Flamengo de Zico jogar quase todo final de semana. Estádio é, sim, lugar para crianças, mulheres, idosos, enfim: é lugar de quem quiser torcer pelo seu time ou simplesmente assistir ao espetáculo. Não é uma Arena à Roma Antiga. Ou não deveria ser pelo menos. Quando escuto uma asneira dessa, lembro-me da estória do marido que pegou a esposa com o amante no sofá, e para salvar o casamento vendeu o sofá. 

Cocada foi expulso por tirar a camisa na comemoração de 1988/Foto: reprodução

Se a violência está afastando as crianças dos jogos de futebol, temos que urgentemente combater a violência e não punir as crianças. O futebol tem que ser motivo de agregação e não de ódio entre pessoas. Se o meu time ganhar e eu não puder brincar com meu vizinho, colega de trabalho ou amigo de bar que torce pelo time perdedor, não faz o menor sentido.

Algumas pessoas parecem jogar suas frustrações e angústias numa partida de futebol. A elas, o meu mais profundo desprezo. Vou continuar seguindo, rindo do rival quando meu time golear o dele e achando graça quando ele me sacanear pela derrota do meu. Paixão sim. Fanatismo e babaquice não.

Saudações rubro negras e até a próxima.