Começo 2026 com uma inquietação que não me deixou em paz durante as últimas semanas. Não escrevo para atacar pessoas nem para ajustar contas com este ou aquele grupo. Escrevo porque há algo errado no modo como a defesa da liberdade vem sendo feita no Acre. E quando a forma está errada, o conteúdo, por melhor que seja, não prospera.
Fazer política pró liberdade por aqui nunca foi simples. O ambiente é adverso, a cultura é estatizante e a dependência do poder público se entranhou na vida cotidiana. Não falo apenas de folha salarial. Falo de mentalidade. De uma lógica segundo a qual o progresso deve vir de cima, por decisão administrativa, como se prosperidade fosse concessão e não consequência.
O acreano aprendeu, ao longo de décadas, a olhar para o Estado como fonte primária de segurança e sustento. Isso tem raízes históricas, econômicas e até geográficas. Mas o fato é que essa dependência cobra um preço alto. Tolhe a iniciativa, desestimula o risco, acomoda talentos. Muitos dos nossos jovens, quando percebem as limitações do ambiente, simplesmente vão embora. Não porque não amem o Acre, mas porque querem viver onde o esforço individual encontra menos obstáculos.
Diante disso, o movimento liberal no estado deveria ser voz clara, pedagógica e acessível. No entanto, com frequência se perde em discursos que não dialogam com a realidade concreta das pessoas. Há excesso de conceitos e escassez de conexão. Fala-se de teoria onde o cidadão quer saber como abrir um pequeno negócio sem ser esmagado por exigências e taxas. Discute-se grandes formulações enquanto o produtor rural enfrenta dificuldades práticas que ninguém resolve.
Não se trata de abandonar princípios. Pelo contrário. Trata-se de torná-los inteligíveis. Liberdade econômica não é expressão para seminário. É a diferença entre depender de um favor político ou viver do próprio trabalho. Responsabilidade fiscal não é tese acadêmica. É o que impede que a conta recaia, mais cedo ou mais tarde, sobre quem produz.
Também é preciso reconhecer que o problema não começou ontem. Não é obra exclusiva de um governo ou de um partido. Há uma estrutura pesada, burocrática, que se acumulou ao longo do tempo e que condiciona o funcionamento do estado. Muitos chamam isso de custo Brasil. Aqui sentimos algo ainda mais concentrado, que poderíamos chamar de custo Acre. Uma combinação de isolamento, excesso de regulação e cultura assistencialista.
Se o liberalismo acreano quiser deixar de ser um discurso de nicho, precisa falar com o comerciante do bairro, com o pequeno agricultor, com o jovem que pensa em empreender e não sabe por onde começar. Precisa mostrar que a liberdade não é abstração ideológica, mas instrumento de melhoria concreta da vida.
Não se constrói uma sociedade livre apenas denunciando o estatismo. Constrói-se oferecendo alternativa viável, linguagem clara e presença constante. A liberdade não se implora ao poder. Conquista-se pela mudança de mentalidade.
Talvez 2026 seja o ano de fazermos essa inflexão. Se não o fizermos, continuaremos certos em nossas convicções e irrelevantes na prática. E convicções irrelevantes não transformam realidade alguma.
Ronan Matos
Escritor e jornalista, membro da Academia Juvenil Acreana de Letras, editor-chefe do Diário do Acre e embaixador estadual do Students For Liberty Brasil, uma das maiores organizações pró-liberdade do mundo.



