O preço da instabilidade: como conflitos externos pressionam o campo

É um equívoco tratar preços de fertilizantes e combustíveis como variáveis meramente técnicas ou conjunturais. O que está em jogo é geopolítica. O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã não é um evento distante para o produtor rural brasileiro. Ele incide diretamente sobre custos, margens e competitividade. O ponto central dessa vulnerabilidade tem nome e endereço: Estreito de Ormuz.

Trata-se de um corredor marítimo com menos de 40 quilômetros de largura que conecta o Golfo Pérsico ao restante do mundo. Por ali passa cerca de um terço do comércio global de fertilizantes nitrogenados — ureia, amônia anidra, nitrato de amônio — insumos essenciais para a produtividade agrícola. Países como Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e o próprio Irã concentram parte relevante dessa oferta.

Em 2025, o Brasil importou volume recorde de fertilizantes: 45,5 milhões de toneladas. Mais de 80% do consumo nacional depende de fontes externas. Estima-se que algo em torno de 15 milhões de toneladas tenham atravessado o Estreito de Ormuz antes de chegar aos portos brasileiros. Em outras palavras, parcela significativa da safra nacional depende da estabilidade de uma das rotas mais sensíveis do planeta.

Essa é uma vulnerabilidade estratégica

Não se trata apenas de volatilidade de preços. Um bloqueio temporário, um agravamento do conflito ou novas sanções comerciais podem gerar escassez física de insumos. Fertilizantes mais caros reduzem margens. Fertilizantes indisponíveis reduzem produtividade. O impacto é direto e imediato.

Além disso, o risco não se limita aos fertilizantes. O Estreito de Ormuz também é vital para o escoamento de petróleo bruto e gás natural liquefeito. O gás é insumo fundamental na produção de fertilizantes nitrogenados. O petróleo afeta diesel, transporte e logística. A pressão geopolítica se transmite por dois canais simultâneos: energia e insumos agrícolas. O resultado é conhecido: aumento do prêmio de risco nos mercados, elevação do dólar, encarecimento das importações e compressão das margens do produtor.

O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma das agriculturas mais eficientes do mundo. Domina tecnologia tropical, genética, manejo e escala produtiva. Mas há uma contradição estrutural que precisa ser enfrentada: um país com vocação para alimentar o mundo não pode depender criticamente de um único ponto geográfico vulnerável para garantir seus insumos básicos.

O Estreito de Ormuz é o “gargalo invisível” da segurança agrícola brasileira. Esse risco não aparece nas estatísticas de produtividade, nem nos relatórios de safra. Ele só se materializa quando há crise — e, nesse momento, já é tarde para reagir.

A resposta precisa ser estratégica e permanente. Diversificação geográfica de fornecedores não é opção, é necessidade. Reindustrialização da produção nacional de fertilizantes é agenda de soberania econômica. Fortalecimento efetivo do Plano Nacional de Fertilizantes precisa sair do discurso e ganhar execução concreta. Parcerias internacionais devem ser estruturadas com foco em resiliência de cadeias críticas.

Segurança alimentar começa antes da porteira. Começa na garantia de que fertilizantes e energia estarão disponíveis a preços previsíveis.

O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã é apenas mais um lembrete de uma realidade incontornável: geopolítica passou a ser variável central na formação de custos do agro. Ignorar isso não é prudência — é exposição desnecessária a riscos estratégicos.

O Brasil tem escala, tecnologia e capacidade produtiva para liderar a segurança alimentar global. Mas liderança exige visão estratégica sobre cadeias de insumos. Enquanto essa vulnerabilidade estrutural persistir, a competitividade do agro continuará condicionada a decisões tomadas a milhares de quilômetros do campo brasileiro.

E essa é uma dependência que não combina com o protagonismo que o país ambiciona exercer no mundo.

Celso Moretti. Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa.

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