Os Fiscais do Poder e a Miopia Seletiva

Existe uma curiosa modalidade de indignação que tem prosperado na política acreana.
Ela não se revolta propriamente com o uso da máquina pública. Não se incomoda com a promoção pessoal financiada pelo contribuinte. Não questiona a mistura entre comunicação institucional e projeto eleitoral.
Sua preocupação surge apenas quando a visibilidade alcança alguém que não ocupa o Palácio Rio Branco.

Nos últimos dias, algumas vozes ligadas ao governo passaram a questionar o senador Alan Rick por mencionar a entrega de máquinas e equipamentos destinados aos municípios acreanos. O argumento é conhecido. Os recursos seriam fruto de emendas da bancada federal e, portanto, não poderiam ser apresentados como conquista individual.

A observação merece reflexão.

Ninguém discute que os recursos são fruto de emendas da bancada federal. Ninguém discute que diversos parlamentares contribuíram para tornar possível a aquisição dos equipamentos. E ninguém de boa-fé deveria tentar apagar esse mérito coletivo.
Mas há uma pergunta igualmente legítima.

Desde quando reconhecer uma conquista coletiva exige apagar a participação de quem ajudou a construí-la?

A entrega de equipamentos aos municípios acreanos não será uma cerimônia qualquer. Trata-se, inegavelmente, de uma das maiores ações de fortalecimento das prefeituras já realizadas no estado, com impacto direto sobre infraestrutura urbana, recuperação de ramais, apoio à agricultura, manutenção de estradas vicinais e prestação de serviços públicos.

Grandes resultados raramente acontecem por geração espontânea.
Eles exigem articulação política, negociação institucional, construção de consensos, reuniões intermináveis, acompanhamento técnico e capacidade de reunir interesses diferentes em torno de um objetivo comum.

Foi exatamente isso que ocorreu.

Na condição de coordenador da bancada federal, Alan Rick participou ativamente das articulações que viabilizaram os investimentos. Presidiu reuniões, ajudou a construir entendimentos entre parlamentares, acompanhou demandas dos municípios, dialogou com ministérios e participou diretamente das tratativas necessárias para transformar recursos previstos no papel em equipamentos efetivamente entregues à população.

Naturalmente, não trabalhou sozinho.
Mas também não ocupou o papel de mero espectador.

Negar sua participação seria tão razoável quanto afirmar que um maestro não teve importância em um concerto porque não tocou todos os instrumentos da orquestra.

O aspecto mais curioso dessa controvérsia, porém, não está na crítica. A crítica é parte essencial da democracia.
O que chama atenção é a seletividade.

Quando estruturas públicas são utilizadas para promover autoridades, muitos dos atuais críticos permanecem em silêncio. Quando inaugurações assumem contornos claramente eleitorais, a preocupação com a moralidade administrativa parece entrar em recesso. Quando perfis institucionais passam a servir mais à construção de imagem do que à informação pública, a indignação desaparece com surpreendente facilidade.

Mas basta que um adversário político receba reconhecimento por um trabalho efetivamente realizado para que surjam, quase instantaneamente, os guardiões da pureza republicana.

Parece mais fácil atacar quem está trabalhando do que explicar por que, após tantos anos ocupando estruturas de poder, o Acre ainda convive com rodovias precárias, gargalos históricos na saúde, dificuldades logísticas e oportunidades de desenvolvimento que seguem esperando para sair do papel.

E também porque talvez seja mais confortável discutir quem aparece na fotografia do que explicar por que tantas demandas da população continuam sem resposta.

No fundo, a irritação não parece ser com as máquinas.
Nem com as emendas.

A irritação parece surgir quando alguém de fora da estrutura governamental passa a ocupar espaço crescente no debate público e a receber o reconhecimento que normalmente acompanha o trabalho político bem-sucedido.

E isso ajuda a compreender por que determinadas críticas aparecem justamente agora.
Pesquisas não elegem ninguém.
Mas revelam tendências.
E tendências costumam provocar inquietação em quem se acostumou a confundir permanência no poder com preferência popular.

Pesquisas não se enfrentam com notas oficiais, declarações indignadas ou tentativas de apagar o papel desempenhado por adversários.
Enfrentam-se com resultados.
Com trabalho.
Com credibilidade.
Com a confiança livremente concedida pela população.

Não se trata de defender privilégios nem de blindar agentes públicos do escrutínio.
Ao contrário.
Todo homem público deve ser fiscalizado.
Toda autoridade deve prestar contas.
Toda ação governamental deve ser submetida ao julgamento da sociedade.
Mas quem fiscaliza também precisa aceitar ser fiscalizado.
Quem exige coerência dos outros precisa praticá-la.

A ética perde seu valor quando deixa de ser princípio e passa a ser instrumento
E princípios são universais.
Conveniências são seletivas.

O restante é apenas o ruído de quem descobriu a virtude da impessoalidade administrativa exatamente no momento em que ela se tornou politicamente conveniente.

Elson Dantas, Jornalista

O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Diário do Acre.

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