Com a implementação da reforma tributária iniciada em 2026, o agronegócio brasileiro entra em um período decisivo de adaptação a um novo modelo de tributação sobre o consumo. Embora o setor seja tratado como prioritário, dados recentes da PwC Brasil indicam que a maioria das empresas ainda não está preparada para lidar, de forma estratégica e integrada, com os impactos da mudança.
Em conversa com o Agro Estadão, Mayra Theis, sócia e líder do setor de Agronegócio da PwC Brasil, ressaltou os dados compilados: apenas 36% das empresas com faturamento acima de R$ 5 bilhões afirmam ter um entendimento estratégico avançado da reforma. Esse percentual cai à medida que o faturamento diminui.
No panorama geral, 37% das empresas ainda estão em estágio inicial de maturidade estratégica, enquanto 32% se encontram em fase considerada intermediária. “A reforma exige uma leitura ampla do negócio, da cadeia de valor e do fluxo financeiro. O que vemos é uma mobilização ainda lenta e fragmentada”, disse.
Nesse aspecto, a tecnologia é um gargalo crítico. De acordo com a pesquisa da PwC, apenas 9% das empresas respondentes concluíram o diagnóstico tecnológico e iniciaram ajustes nos sistemas de nota fiscal. Outros 37% ainda estão no estágio inicial de avaliação de estrutura e sistemas de tecnologia da informação, o que, segundo a especialista, representa um risco relevante para a operacionalização do novo modelo tributário.
Para o agronegócio, esse atraso é especialmente sensível. “Há um gargalo claro entre a definição estratégica e a capacidade operacional de implementar a reforma. Sem sistemas preparados, a não cumulatividade ampla prometida pelo novo modelo pode não se materializar na prática”, alerta Mayra.
Alta carga tributária e impacto no caixa como riscos
Mayra Theis, sócia e líder do setor de Agronegócio da PwC Brasil. Foto: PwC Brasil/Divulgação
Conforme o mapeamento, a principal apreensão do setor de agronegócio está relacionada à liquidez: cerca de 60% das empresas apontam a elevação da carga tributária e o impacto no caixa como os maiores riscos. A preocupação se concentra no início da cadeia produtiva, marcado por elevados desembolsos com insumos, máquinas e equipamentos.
Embora a reforma preveja mecanismos de não cumulatividade que podem reduzir o resíduo tributário ao longo do tempo, o efeito inicial tende a ser uma maior demanda por capital de giro. “Mesmo com instrumentos como o diferimento, o acúmulo de créditos pode drenar o fluxo de caixa e gerar custo financeiro relevante, especialmente em um cenário de Selic elevada”, explica a executiva. Ela destaca que, nesse contexto, a agilidade no ressarcimento de créditos se torna, portanto, um ponto-chave para a sustentabilidade financeira das empresas do setor.
Reestruturações ganham protagonismo, mas falta uma visão geral
Diferentemente de outros segmentos da economia, o agronegócio tende a reagir à reforma com mudanças mais profundas em sua estrutura. A pesquisa mostra que 53% das empresas do agro planejam reestruturações societárias e operacionais, ante 31% na média geral dos outros setores.
Essa estratégia passa menos pelo reposicionamento de portfólio e mais pela revisão do modelo operacional. “A logística, por exemplo, tende a ser redesenhada com foco no produtor rural e na eficiência da cadeia, e não mais para contornar ineficiências tributárias entre estados”, exemplifica Mayra.
Outro ponto sensível é a área de suprimentos. A partir de 2027, com a entrada da CBS, diversos incentivos de créditos presumidos de PIS e Cofins deixarão de existir. Ainda assim, apenas 41% das empresas esperam impacto elevado nessa área, o que preocupa a PwC. “Será fundamental renegociar contratos, mapear resíduos tributários e evitar inflação de custos. Sem isso, a perda de competitividade pode ser significativa”, afirma Mayra.
Além disso, a pesquisa confirma uma percepção recorrente no mercado: a ausência de uma abordagem para o todo. No levantamento, percebe-se que os esforços têm se concentrado nas áreas de Contabilidade (93%), TI (83%) e Jurídico (68%), enquanto Comercial (59%), Suprimentos (57%) e Logística (43%) seguem menos engajadas.
Esse descompasso aumenta o risco de uma transição meramente operacional. “O maior perigo é chegar a 2027 com sistemas funcionando, mas sem clareza sobre margens, fluxo de caixa e eficiência do negócio no novo ambiente tributário”, alerta a sócia da PwC Brasil.



