Em 2025, as exportações brasileiras totalizaram US$ 348,6 bilhões, de acordo com dados do Comex Stat, do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
A participação do agronegócio foi de US$ 169,2 bilhões desse montante, quase metade do que o país embarcou para fora, segundo o Agrostat, do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária).
Por operar em cadeias produtivas integradas ao mercado internacional, o setor é particularmente sensível às oscilações cambiais, especialmente à variação do dólar em comparação ao real. Mas a relação entre câmbio e agronegócio vai além do impacto direto sobre as exportações.Play Video
Afeta preços de commodities, custos de produção, decisões de investimento, endividamento e planejamento financeiro de produtores e empresas.
“Para o produtor agrícola, uma alta do dólar atua via dois canais: eleva os custos por causa do aumento dos preços dos insumos importados e incrementa a renda bruta porque aumenta a receita das exportações convertida em reais. Mas, como regra, sabe-se que o aumento da renda supera a elevação de custos”, segundo o Cepea (Centro de Pesquisas em Economia Aplicada).
Entender a dinâmica auxilia o desempenho do setor ao longo dos ciclos econômicos e guia tomada de decisões de investimentos, por exemplo.
Para acompanhar de perto este segmento, a CNN Brasil inicia no próximo mês a cobertura setorizada do agronegócio brasileiro. A partir do dia 9 de fevereiro, a emissora oficializa a estreia do CNN Agro, novo núcleo editorial dedicado ao agronegócio, que terá uma presença multiplataforma, ocupando espaços de destaque tanto no canal principal da CNN Brasil quanto no CNN Money e nas plataformas digitais.
Preço das commodities
Grande parte dos produtos agrícolas brasileiros, como soja, milho, café, açúcar e suco de laranja, tem seus preços definidos em bolsas internacionais, como as de Nova York e Chicago, com contratos em dólar.
Isso significa que a moeda americana é o principal referencial de precificação dessas commodities no comércio global.
Neste contexto, quando o dólar se fortalece em relação a outras moedas, as commodities tendem a sofrer pressão negativa nas cotações internacionais.
Isso ocorre porque os compradores estrangeiros passam a gastar mais em suas moedas locais para adquirir o mesmo volume de produto cotado em dólar, o que pode reduzir a demanda.
Em sentido oposto, um dólar mais fraco costuma favorecer a valorização das commodities nas bolsas, ao tornar as compras mais acessíveis para importadores.
Competitividade
No caso brasileiro, a relação entre dólar e agronegócio ganha uma camada adicional. Como os produtos exportados são precificados em dólar, a taxa de câmbio influencia diretamente a competitividade do Brasil no comércio internacional.
Quando o real se desvaloriza frente ao dólar, os produtos brasileiros tendem a ficar mais baratos para compradores estrangeiros, o que pode favorecer as exportações e ampliar a receita em moeda local.
Já um real mais forte reduz essa vantagem competitiva, tornando o produto nacional relativamente mais caro no exterior.
Segundo a Associação de Comércio Exterior do Brasil, setores com maior parte da receita atrelada ao dólar, como o agronegócio e a indústria extrativa, têm potencial para se beneficiar com a valorização da moeda americana.
O efeito, no entanto, não é automático, nem homogêneo. Ele depende de fatores como elasticidade da demanda – mensuração de quanto o consumidor reage a alterações nos preços –, estoques globais, logística, acordos comerciais e concorrência com outros países produtores.
Custos de produção
Se, por um lado, a desvalorização do real pode favorecer as exportações, por outro ela pressiona os custos do agronegócio.
Uma parcela relevante dos insumos utilizados na produção agrícola é importada ou tem preços atrelados ao dólar, como fertilizantes, defensivos e sementes, e até máquinas e equipamentos.
Quando a moeda americana sobe frente ao real, esses insumos ficam mais caros em termos locais, elevando o custo de produção e comprimindo margens, além de afetar decisões de investimento e modernização no campo.
Exposição cambial
Outro canal de transmissão do câmbio para o agronegócio é o financeiro. Produtores e empresas do setor, em alguns casos, mantêm dívidas ou contratos atrelados ao dólar.
A valorização da moeda americana aumenta o valor dessas obrigações em reais, exigindo maior geração de caixa para honrar os compromissos.
Mesmo quando o endividamento não é diretamente dolarizado, o câmbio influencia as condições de crédito, especialmente em períodos de maior volatilidade ou aperto monetário.
A combinação de dólar elevado e juros altos tende a encarecer o financiamento, afetando tanto o custeio da safra quanto projetos de investimento de longo prazo.
A volatilidade cambial é um dos principais desafios para o planejamento financeiro no agronegócio. Oscilações bruscas do dólar dificultam a projeção de custos, receitas e margens, especialmente em atividades com ciclos longos de produção.
Por isso, mais do que identificar se o dólar está “alto” ou “baixo”, produtores e empresas tendem a buscar previsibilidade.
Instrumentos de proteção, como contratos futuros e operações de hedge, são utilizados para reduzir a exposição às variações cambiais e trazer maior estabilidade ao fluxo de caixa.
Fluxo de capitais
A taxa de câmbio também desempenha papel relevante nas decisões de investimento estrangeiro no agronegócio brasileiro.
Um real mais valorizado torna os ativos locais mais caros para investidores internacionais, enquanto um real mais desvalorizado pode reduzir o custo de entrada em termos de moeda estrangeira.
Esses movimentos influenciam desde aquisições de terras e empresas até aportes em infraestrutura, logística e processamento industrial.
Ainda assim, o câmbio é apenas um dos fatores considerados, ao lado de estabilidade regulatória, previsibilidade institucional e perspectivas de demanda global.



