Quando cada órgão fala sozinho: a falta de coordenação como geradora de crise institucional

A ausência de coordenação entre setores e instituições transforma decisões legítimas em conflitos evitáveis, amplia riscos operacionais e compromete a confiança do cidadão.

A crise começa quando a resposta não é única

Nos debates sobre governança pública, costuma-se atribuir conflitos institucionais a decisões mal formuladas ou a falhas normativas. A prática administrativa, contudo, demonstra que muitos problemas não surgem da decisão em si, mas da forma como ela é executada.

Depois de compreender que conflitos com o consumidor começam antes do problema e que decisões sem transparência geram insegurança, torna-se evidente um terceiro fator decisivo: a coordenação. Mesmo decisões tecnicamente corretas e juridicamente válidas podem gerar crise quando executadas de forma fragmentada.

Em ambientes institucionais complexos, políticas públicas e medidas administrativas envolvem diferentes órgãos, setores técnicos e canais de atendimento. Quando essa engrenagem não opera de forma integrada, o cidadão recebe respostas distintas para a mesma situação — e a confiança se rompe.

1. O problema: estruturas que não conversam entre si

A falta de coordenação interinstitucional costuma ser tratada como um detalhe operacional. Na prática, trata-se de uma falha estrutural de governança.

É comum que uma decisão seja anunciada por um órgão central, mas executada por setores distintos. Um cidadão busca informação em um canal oficial e recebe uma orientação. Ao procurar outro setor, recebe resposta diferente para a mesma demanda. Nenhuma das respostas é necessariamente ilegal; o problema está na ausência de alinhamento.

Quando não existem fluxos claros de comunicação interna nem definição objetiva de responsabilidades, cada setor passa a interpretar a decisão conforme sua própria lógica. Para o cidadão, pouco importa onde ocorreu a falha. O que fica é a percepção de desorganização institucional.

Esse cenário transforma procedimentos simples em conflitos recorrentes e desgastantes.

2. O risco: insegurança, retrabalho e desgaste institucional

A ausência de coordenação produz riscos concretos e cumulativos. O primeiro deles é a insegurança administrativa. Diante de respostas contraditórias, o cidadão passa a desconfiar da instituição e a buscar outras formas de proteção.

Além disso, a execução descoordenada gera retrabalho. Demandas simples circulam entre setores, respostas precisam ser refeitas e equipes gastam tempo corrigindo falhas internas de comunicação. O custo não aparece de imediato no orçamento, mas se manifesta na sobrecarga dos canais de atendimento e no aumento de reclamações formais.

Em muitos casos, o conflito evolui para judicialização não porque a decisão seja ilegal, mas porque o cidadão busca uma resposta única e coerente. O Judiciário passa a ser acionado como instância de organização do que deveria ter sido resolvido internamente.

O desgaste institucional é inevitável. A imagem do Estado se fragiliza quando transmite a sensação de que cada órgão atua por conta própria, sem coordenação ou coerência.

3. A solução: coordenação como método de governança

Coordenação interinstitucional não é improviso nem depende apenas da boa vontade das equipes. Trata-se de método de governança que exige planejamento, clareza e padronização.

Antes da implementação de decisões de maior impacto, é fundamental identificar quais órgãos estarão envolvidos, definir responsabilidades e alinhar orientações. A comunicação precisa ser integrada desde o início, evitando que cada setor construa sua própria narrativa.

Quando há coordenação, a decisão é comunicada de forma uniforme, as equipes de atendimento sabem como proceder e o cidadão percebe previsibilidade, mesmo quando a medida impõe limites ou exige adaptações. O conflito perde espaço antes mesmo de surgir.

Checklist prático de coordenação interinstitucional

– Mapear previamente os órgãos e setores envolvidos

– Definir responsabilidades claras

– Padronizar orientações e respostas ao cidadão

– Criar canais internos de alinhamento rápido

– Treinar equipes de atendimento de forma integrada

– Monitorar falhas recorrentes

– Revisar processos após conflitos

Governar bem é governar em conjunto

A coordenação interinstitucional é um dos pilares mais subestimados da governança pública. Onde cada órgão atua isoladamente, o conflito se multiplica. Onde há alinhamento, a decisão se sustenta.

Decisões legítimas só produzem resultados positivos quando executadas de forma coordenada, clara e previsível. A eficiência do Estado não depende apenas de boas normas ou boas intenções, mas da capacidade de agir como um sistema integrado.

Em ambientes institucionais complexos, coordenação não é detalhe operacional. É condição essencial de governança e confiança pública.

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Lincon Martins

Márcio Lincon Martins Andrade Junior é advogado (OAB/AM 13.545), pós-graduado em Advocacia Cível e em Segurança Pública. Atuou na coordenação de atividades de defesa do consumidor no âmbito legislativo e atualmente exerce função de chefia de gabinete, com foco em governança institucional, integridade e eficiência administrativa.

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