DE TUDO UM POUCO

Que me perdoem os bons, mas vocês também são ruins

Quando comecei a escrever periodicamente esta coluna para este diário, fui instigado, incentivado e por vezes até mesmo provocado a escrever sobre política. A todos, respondi sempre que “sobre tudo, menos sobre política”. Talvez, por ter conhecido nos últimos quase vinte anos de minha vida, as mais diversas cozinhas da política. Das mais belas e elegantes às mais fétidas e subterrâneas. Mas tal qual fez Vandré em “Pra não dizer que não falei das flores”, resolvi falar um pouco sobre os protagonistas dessa ciência: os políticos! Antecipo-me dizendo: se não fossem os políticos, a política seria maravilhosa. E vou além: que me perdoem os políticos de bem, mas até vocês são ruins.

E digo isso com a propriedade de ser filho de um político raro, um político de causa. Que entrou para a vida pública com um propósito claro, com uma bandeira. E que saiu dela pela porta da frente após dez anos, menos afortunado do que entrou. Digo isso com a propriedade de quem, mesmo morando há apenas seis anos no Acre, ter sido eleito primeiro suplente de vereador da capital. Isso, por defender e acreditar à época, na política como a única ferramenta capaz de amenizar o sofrimento de um grande número de pessoas. 

O livro “Voto é marketing…o resto é política”, de Rodolfo Grandi e Alexandre Marins, nos mostra como a arte de fazer política e a conquista de votos são coisas completamente antagônicas. E, é aí que os “bons políticos” começam a se igualar e a nivelar por baixo, tal quais os políticos desavergonhados. Assim que são eleitos, eles precisam lutar e trabalhar por aquilo que se propuseram. Mais não é só isso: precisam divulgar para o maior número de pessoas possível, suas realizações. Pois só assim serão lembrados nas próximas eleições. Mal começou a exercer o mandato para o qual foi eleito e já está pensando na reeleição ou em voos mais altos. E isso é regra!

Quando surge uma boa ideia de propositura ou projeto de lei, o tempo gasto para traçar a estratégia de publicidade de tal ação é muito maior do que a ação em si. E com isso, surgiram os “gênios” da política moderna: os marqueteiros. Afinal, em época de web jornalismo e redes sociais, “é mais importante parecer que trabalha do que trabalhar”, “mais importante do que fazer o bem, é olhar a quem”. Certa feita, ouvi de um político recém-eleito a seguinte afirmação: “Cultura não dá voto”. Fiquei a pensar nesse pragmatismo cruel por vários dias. Ora pois, cultura dá dignidade, dá vida, ou melhor…dá qualidade de vida. Como diz com extrema sapiência a música dos Titãs “A gente não quer só comida… A gente quer comida diversão e arte”. O voto é que deve levar à cultura e não a cultura ao voto.

Quando um político, digamos assim, “novato”, se elege, logo é chamado a inúmeras atividades partidárias, composições de diretórios, chapas internas, congressos municipais, estaduais e federais, enfim, a uma exaustiva agenda partidária. Caso este não participe assim tão ativamente dessas atividades, é logo tachado por individualista, ingrato e outros tantos adjetivos. “Afinal de contas, é preciso ser adversário de algum outro partido”. E essa maluquice eleitoral vai consumindo a maior parte do tempo e energia gastos durante o dia para se fazer política. Quando se vê, o dia acabou, ele está exausto e com a sensação de dever cumprido, de ter correspondido com os anseios de seus eleitores. “Afinal, trabalho o dia inteiro, todos os dias da semana”, pensa ele. E o que é mais grave: ele acredita mesmo nisso.

O filósofo Friedrich Nietzsche afirmou que “um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos”. O ex-presidente do Conselho de Ministro de Portugal, Antônio de oliveira Salazar (1889 / 1970) disse em certa ocasião que “não há nada mais inútil que discutir política com políticos”. E isso porque, como disse Nietzsche, eles já dividiram a humanidade em instrumentos (aliados) e inimigos (adversários). Tudo o mais a partir de então vai se tornando cada vez mais desimportante do que “esmagar” nas urnas seus inimigos nas próximas eleições. E então, aquele promissor político entra em um subterrâneo ciclo vicioso. E com a propriedade de quem já rodopiou tal qual barata tonta neste ciclo e com a maturidade que a vida teima em nos “presentear”, afirmo com triste e tenebrosa convicção que, me perdoem os bons, mas vocês também são ruins.