Santos ou Cangaceiros? Memória, Fé e Valores na História do Sertão

OS SANTOS E OS CANGACEIROS

Na minha busca por obter informações sobre meu ancestral Francisco Miguel de Siqueira (avô da minha bisavó Amélia Leopoldina de Almeida Pedrosa), por acaso, tomei conhecimento de que um missionário italiano, da ordem dos Frades Menores Capuchinhos esteve na Vila da Ingazeira no ano de 1853.

Tive acesso à cópia de uma escritura pública em que meus ancestrais faziam a doação das terras onde hoje é a sede do município da cidade de Ingazeira, no Vale do Pajeú. O Frade Capuchinho compareceu ao cartório acompanhado do meu penta avô (Agostinho Nogueira de Carvalho), e do seu genro Francisco Miguel de Siqueira.

Consta da escritura pública que o Frade Capuchinho, Caetano de Messina, muito se empenhou para que o ato notarial acontecesse. Minha família doou as terras em que hoje se localiza a sede do município para o Padroeiro São José, e quem as recebeu foi meu tetravô Francisco Miguel de Siqueira, como Procurador do Santo (São José).

O Frade reputava como parte de sua missão o ato de receber em doação terras para a Santa Igreja Católica. Fazia parte do seu trabalho missionário.

A informação que obtive é recente. Nunca antes havia ouvido falar de Frei Caetano de Messina, nem que tivesse passado pela Ingazeira, realizando trabalho missionário. Acredito que essa informação que obtive (passagem de Frei Caetano de Messina pela Ingazeira em 1853), é desconhecida da quase totalidade da população das cidades do Vale do Pajeú.

A partir de então, busquei maiores informações sobre a biografia de Frei Caetano de Messina. Uma biografia de um homem extraordinário! Um verdadeiro Santo! Não só esteve em Ingazeira, mas também nas cidades de Flores e Triunfo. É reconhecido como o maior missionário do Brasil Império, e conhecido como “O Missionário Gigante”.

Transcrevo abaixo alguns dados de sua biografia para que tenhamos uma noção da importância do que realizou no interior do Brasil para avanço do nosso processo civilizatório.

Nasceu em Messina, Sicília (1807), e chegou ao Brasil em 1841, tendo realizado campanhas na região do Nordeste, mas também missionado no Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Para quem tem interesse na obra desse importante missionário, ressalto que há informações sobre ele compaginadas em livros e teses de mestrado.

“Suas atuações eram múltiplas, e iam de restauração ou construção de igrejas e cemitérios, à perfuração de poços e irrigação de água no sertão nordestino, bem como edificação de colégios e hospitais e internatos para resguardar as meninas da prostituição”.

Sua atividade no interior de Pernambuco foi intensa!

“Por mais de dez anos Frei Caetano desempenhou atividades apostólicas em Olinda e no Recife e depois partiu em missão itinerante pelos atuais municípios de Igarassu, Goiana, Paudalho, Tracunhaém, Bom Jardim, Limoeiro, Nazaré, Brejo da Madre de Deus, Palmares, Pesqueira (região de Cimbres), Buíque, Ingazeira, Garanhuns e no povoado de Papacaça onde mandou construir um colégio”.

Talvez tenha sido a sua mais importante obra a fundação da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Bom Conselho, em 1853. Aí fundou um colégio para educação de crianças e jovens, que existe até hoje. Seus restos mortais, uma vez trasladados para o Rio de Janeiro, oriundos de Montevideo, em meados dos anos de 1990, vieram para Bom Conselho, e aí estão no educandário que fundou.

Frei Caetano de Messina faleceu em Montevideo, no Uruguai, aos 71 anos de idade. Em 27 de agosto de 1881 seus restos mortais foram trasladados para a Igreja de São Sebastião, no Rio de Janeiro. Em 1996 foram trasladados para a Capela do Colégio de Nossa Senhora do Bom Conselho, na cidade de Bom Conselho, colégio por ele fundado.

Está aberto o processo de santificação de Frei Caetano de Messina. A cerimônia de abertura do inquérito canônico foi conduzida pelo bispo diocesano, Dom Agnaldo Timóteo, no dia 31 de agosto de 2024. A causa de beatificação e canonização de Frei Caetano de Messina é postulada pela Diocese de Garanhuns, com apoio da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Bom Conselho.

Sabe-se que o túmulo do cangaceiro “Jararaca”, do bando de Lampião, fica no cemitério de Mossoró, no Estado do Rio Grande do Norte. Dizem que centenas de pessoas visitam o túmulo do cangaceiro, sobretudo no dia de finados. Para muitos é considerado um santo popular. Os visitantes do túmulo de “Jararaca” aí comparecem para pedirem graças. Há quem diga que muitos pedidos já foram atendidos.

Fiz uma pesquisa na internet e encontrei uma informação que faço questão de transcrever: “Santificação: Por sua morte trágica e arrependimento, ele se tornou um “santo popular”, com pessoas visitando seu túmulo para fazer pedidos e promessas, vendo-o não como um criminoso, mas como uma vítima do Estado”. n.g.

Vejam que coisa mais absurda! “Jararaca”, um criminoso do bando de “Lampião”, que fez opção pelo crime, e que morreu quando tentava invadir a cidade de Mossoró, no Estado do Rio Grande do Norte, cuja objetivo do assalto era roubar às pessoas da cidade, a culpa de sua morte, segundo o autor do texto acima, seria do Estado. A culpa seria da sociedade, e não dele, “Jararaca”, que fez uma escolha pela violência.

Essa semana recebi um convite para conhecer a “Rota do Cangaço”. Trata-se de um roteiro turístico que explora os cenários do cangaço no nordeste do Brasil. Eu já estive no local, que fica no trecho do Rio São Francisco entre Piranhas, em Alagoas, e a Grota do Angicos, onde se deu a morte de Lampião e de seu bando.

Essa simpatia com a bandidagem, com a criminalidade, é algo que está presente na nossa literatura, razão pela qual “Jararaca” se tornou um santo. Não estou dizendo que a questão do cangaço não seja estudada. Deve ser estuda sim, mesmo porque é uma questão de criminologia. Mas essa literatura sobre o tema não deve ser algo para formar o imaginário dos nossos jovens. Precisamos sugerir uma literatura mais elevada, principalmente a que cria virtudes. A Vida dos Santos, por exemplo. Só com quase 40 anos li as “Confissões de Santo Agostinho”.

Lembro-me da leitura que fiz do livro “O Imbecil Coletivo”, do filósofo Olavo de Carvalho, em que no artigo “Bandidos & Letrados”, aborda essa questão com muita propriedade e dar as razões pelas quais nós exaltamos e glorificamos o crime e a bandidagem.

Disse o filósofo: “Humanizar a imagem do delinquente, deformar, caricaturar até os limites do grotesco e da animalidade o cidadão de classe média e alta, ou mesmo o homem pobre quando religioso e cumpridor dos seus deveres – que nesse caso aparece como conformista desprezível e virtual traidor de classe -, eis o mandamento que uma parcela significativa dos nossos artistas tem seguido fielmente, e a que um exército de sociólogos, psicólogos e cientistas políticos dá discretamente, na retaguarda, um simulacro de respaldo científico”.

Pois bem. No momento em que faço a leitura da obra “Livro da Vida”, de Santa Teresa de Jesus, me inspiro para propor aos meus conterrâneos do Pajeú que não nos limitemos em conhecer apenas as biografias dos nossos irmãos que fizeram a opção errada de enveredar pelo cangaço, mas que conheçamos, principalmente, a biografia dos santos que estiveram no nosso meio.

Frei Caetano de Messina é um Santo que esteve no nosso meio. Precisamos conhecer sua biografia e nela nos inspirar para educarmos os nossos jovens em virtudes.

Que tal conhecermos a biografia de Frei Caetano de Messina? Que tal criarmos a tradição, aqui no Sertão do Pajeú, de promovermos visitas ao seu túmulo na cidade de Bom Conselho, onde construiu um colégio visando atender às necessidades de meninas pobres que eram levadas à prostituição por se acharem em estado de abandono intelectual?

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