Mesmo com investigações e disputas globais, mercado chinês segue estratégico para carne, soja e novos investimentos.
O ano de 2025 se encaminha para o fim com atenção redobrada do agronegócio brasileiro para a investigação em curso na China sobre possíveis medidas de salvaguarda às importações de carne bovina. O processo envolve diversos países exportadores, incluindo o Brasil, e pode resultar na imposição de cotas ou tarifas. Apesar das incertezas, a expectativa predominante no setor é de que o impacto para os produtores brasileiros seja limitado.
Na avaliação do presidente da Câmara Brasil-China, Charles Tang, a tendência é que o Brasil não sofra prejuízos relevantes. Segundo ele, o aprofundamento da relação bilateral, intensificado nos últimos meses em razão das tensões comerciais entre China e Estados Unidos, pesa a favor do agronegócio brasileiro. Além disso, a China não possui capacidade territorial para atender sozinha à sua demanda por carne bovina, o que torna as importações uma necessidade estrutural.
Os números confirmam a centralidade do Brasil nesse mercado. Entre janeiro e novembro, o país exportou 2,8 milhões de toneladas de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada, sendo que a China respondeu por 53,9% desse total, conforme dados da plataforma ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A dependência chinesa do fornecimento brasileiro ajuda a explicar o cenário de relativo otimismo mesmo diante de investigações regulatórias.
No campo dos grãos, a soja brasileira também segue com forte demanda. Tang destaca que o tarifaço imposto pelos Estados Unidos à China levou os chineses a reduzir drasticamente a compra de produtos agrícolas norte-americanos, abrindo espaço para o Brasil ampliar exportações. Em episódios anteriores de restrições comerciais, o Brasil chegou a direcionar mais de 90% de sua safra de soja ao mercado chinês, com valorização significativa dos preços.
Mesmo com acordos pontuais entre China e Estados Unidos, a avaliação é de que a demanda chinesa por produtos brasileiros continuará aquecida. A China, apesar das tensões, mantém elevado volume de exportações globais e segue priorizando fornecedores confiáveis. Nesse contexto, o Brasil aparece como parceiro preferencial, inclusive em comparação com outros países sul-americanos, como a Argentina, cuja política externa é vista como mais alinhada a Washington.
Além do comércio, a presença chinesa no interior do Brasil tende a se intensificar. Empresas do país asiático ampliam investimentos em tecnologia agrícola, mineração e infraestrutura, reforçando a interdependência entre as duas economias. A agricultura brasileira, altamente produtiva, garante segurança alimentar à China, enquanto o Brasil se beneficia de capital, inovação e novos mercados.
A pauta da sustentabilidade também ganha peso crescente nas negociações. De acordo com Tang, a China assumiu protagonismo ambiental após a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e adota critérios cada vez mais rigorosos em seus acordos comerciais. Esse fator pode influenciar debates internos no Brasil, como a Moratória da Soja, embora a necessidade chinesa por commodities siga elevada.
Para 2026, as perspectivas são de ampliação dos investimentos chineses no país, incluindo setores como veículos elétricos, equipamentos de energia, drones agrícolas e microtratores voltados à agricultura familiar. A expectativa é de que a relação Brasil-China continue sendo um dos pilares do agronegócio nacional, impulsionada pelo mercado consumidor chinês e por projetos estruturantes, como a ferrovia bioceânica, capazes de elevar a competitividade e o crescimento do setor no médio e longo prazo.



