Soja para a China: quem avança mais, Brasil ou EUA?

Desde que a China firmou um acordo comercial com os Estados Unidos (EUA) há cerca de um mês, o setor agrícola acompanha o retorno gradual de Pequim às compras de soja no mercado norte-americano, após meses sem nenhuma aquisição. 

Números oficiais do Departamento de Agricultura dos EUA indicam aquisições totais de 2,6 milhões de toneladas no período. Porém, como o sistema de registros do órgão norte-americano ainda não está totalmente restabelecido após o fim do shutdown, analistas afirmam que o volume real é maior. “Pelos dados de mercado, as compras já passam de 4 milhões de toneladas”, explica Daniele Siqueira, analista da AgRural. 

Nesta sexta-feira, 28, exportadores privados dos EUA reportaram vendas semanais de 312 mil toneladas de soja à China, para embarque no ano comercial 2025/26. Além disso, nesta semana, agências internacionais noticiaram que os chineses fecharam a compra de 10 navios de soja norte-americana, avaliadas em cerca de US$ 300 milhões.

Vale lembrar que, no acordo firmado entre as duas potências, os chineses se comprometeram a comprar 12 milhões de toneladas de soja norte-americana até o final de janeiro.  

Compras com carácter político

Apesar da reaproximação entre Washington e Pequim, a soja brasileira mantém vantagem de preço. 

Conforme dados levantados pela AgRural, para embarque em dezembro de 2025, o produto do Brasil está cerca de US$ 40 por tonelada mais barato do que o ofertado pela costa Noroeste dos EUA (PNW), considerando valores postos na China. “Brasil segue mais barato e as compras feitas pela China nos EUA são mais de cunho político mesmo, para mostrar que a China está fazendo a parte dela no acordo. Creio eu ainda que os volumes comprados até agora estejam longe dos 12 milhões de toneladas”, afirma Daniele.

A analista ressalta ainda que, no curto prazo, não há preocupação em relação à perda de espaço brasileiro no mercado chinês. “Vamos precisar ver como as compras da China irão se comportar ao longo de dezembro para avaliar o impacto do acordo no programa de exportação do Brasil em 2026”, apontou. 

Ela ressalta que não acredito em grande impacto no volume exportado, pelo menos não no primeiro semestre, mas é possível que acompanhemos prêmios de exportação mais fracos, especialmente se os recordes de safra se confirmarem.

Bloqueio chinês à carga brasileira tem impacto limitado

Nesta semana, a Administração-Geral de Aduanas da China (GACC) suspendeu às importações de soja de cinco unidades brasileiras. O motivo apontado foi a presença de resíduos de pesticidas e a presença de grãos de trigo com defensivos.

Em nota, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) disse que foi notificado na quarta-feira, 26, e que o episódio está sendo analisado com “devida prioridade”. O governo ressaltou que o bloqueio envolve apenas cinco unidades entre mais de 2 mil habilitadas a exportar para a China e destacou que a relação entre os países segue “sólida e estratégica”. “Somente neste ano, mais de 100 milhões de toneladas de soja devem ser embarcadas para o maior parceiro comercial do agronegócio brasileiro”, trouxe o comunicado. 

A pasta destacou ainda que o governo brasileiro, “sempre que informado sobre qualquer eventual inconformidade, conduz as avaliações com transparência, responsabilidade e agilidade”. 

Em relação ao caso, o consultor Carlos Cogo, disse ao Agro Estadão que não há motivo para interpretação alarmista. “O impacto imediato é limitado, porque a suspensão vale só para as unidades notificadas. As outras plantas das mesmas empresas continuam exportando normalmente”, afirma.

Cogo, porém, aponta a necessidade de monitoramento, uma vez que os chineses retomaram as compras de soja norte-americana. “É importante acompanhar para ver se não se trata de uma estratégia de cancelamento para recompra mais barata, algo que já ocorreu no passado”, observa.

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