Decisões administrativas de grande alcance, quando mal comunicadas ou pouco compreendidas, revelam como falhas de governança e gestão de risco ampliam insegurança institucional e desconfiança social.
Quando a decisão é legítima, mas o processo gera incerteza
Anúncios recentes sobre a suspensão temporária do processamento de determinados vistos para ingresso nos Estados Unidos ganharam grande repercussão internacional. Independentemente do mérito da medida, o episódio chamou atenção por um ponto central: a insegurança gerada pela ausência inicial de informações claras, critérios objetivos amplamente compreendidos e comunicação coordenada.
Para cidadãos, empresas e instituições impactadas, a principal dificuldade não foi apenas a decisão em si, mas a falta de previsibilidade sobre alcance, duração e efeitos práticos. Esse tipo de reação é comum sempre que políticas públicas de grande impacto são implementadas sem um desenho comunicacional adequado.
O episódio, embora internacional, oferece uma lição relevante e aplicável a qualquer ambiente institucional: decisões administrativas precisam ser acompanhadas de governança, transparência e gestão de risco para evitar crises desnecessárias.
1. O problema: decisões amplas com comunicação insuficiente
Medidas administrativas que afetam milhares de pessoas exigem mais do que fundamento normativo. Elas demandam clareza procedimental, explicação acessível e alinhamento institucional na comunicação.
Quando critérios não são apresentados de forma objetiva, abre-se espaço para interpretações equivocadas, boatos e alarmismo. A decisão deixa de ser compreendida como política pública e passa a ser percebida como arbitrariedade.
2. O risco: insegurança institucional e crise de confiança
A falta de transparência decisória gera um risco institucional relevante: a erosão da confiança. Cidadãos e agentes econômicos passam a operar em ambiente de incerteza, adiando decisões e suspendendo projetos.
Além disso, a ausência de comunicação estruturada amplia o risco reputacional e sobrecarrega canais de atendimento e estruturas administrativas.
3. A solução: governança decisória e gestão de risco
Boa governança pública não se resume à legalidade do ato. Ela envolve planejamento, avaliação de impacto, comunicação coordenada e mecanismos de esclarecimento contínuo.
Quando o cidadão compreende o porquê, o como e o até quando de uma medida, o conflito perde espaço e a legitimidade institucional se fortalece.
Checklist prático de governança em decisões de alto impacto
– Definir critérios objetivos antes do anúncio
– Avaliar impactos institucionais e operacionais
– Planejar comunicação integrada
– Disponibilizar canais claros de esclarecimento
– Treinar equipes previamente
– Monitorar reações e ajustar mensagens
– Revisar políticas periodicamente
Governar também é saber explicar decisões. Onde há governança e transparência, a crise perde espaço antes mesmo de surgir.
Lincon Martins
Márcio Lincon Martins Andrade Junior é advogado (OAB/AM 13.545), pós-graduado em Advocacia Cível e em Segurança Pública. Atuou na coordenação de atividades de defesa do consumidor no âmbito legislativo e atualmente exerce função de chefia de gabinete, com foco em governança institucional, integridade e eficiência administrativa.



