Setor avalia que fundamentos do mercado seguem positivos, com exportações fortes e demanda interna consistente.
O avanço das tensões geopolíticas no Oriente Médio passou a ser citado como um possível fator de risco para o comércio internacional de carnes. No entanto, lideranças da pecuária brasileira alertam que parte dessas preocupações pode estar sendo usada de forma especulativa para pressionar os preços do boi gordo no mercado interno.
Representantes da cadeia produtiva da bovinocultura de corte avaliam que existe atualmente uma disputa clara entre frigoríficos e pecuaristas nas negociações pela arroba do boi. Enquanto a indústria tenta impor valores menores nas compras de gado, produtores demonstram resistência e aguardam condições mais favoráveis para vender seus animais.
Mesmo com o clima de incerteza internacional, analistas do setor apontam que os fundamentos do mercado da carne bovina seguem positivos, sustentados por uma demanda doméstica relativamente firme e por exportações que continuam em ritmo elevado.
O aumento das tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos trouxe ao debate a possibilidade de impactos logísticos no comércio global. Um dos principais pontos citados é o risco de fechamento do estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para transporte de mercadorias.
Apesar disso, especialistas da pecuária brasileira afirmam que o impacto direto sobre as exportações de carne bovina do Brasil tende a ser limitado. As principais rotas comerciais utilizadas pelo país não dependem desse corredor marítimo localizado no Golfo Pérsico.
Grande parte da carne bovina brasileira destinada à Ásia, por exemplo, segue contornando o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança, sem necessidade de utilizar o estreito de Ormuz. Além disso, os maiores compradores da proteína brasileira, como China, Estados Unidos, Chile e México, estão geograficamente distantes da área de conflito.
Outro ponto destacado por analistas é que as exportações destinadas ao Oriente Médio representam uma parcela relativamente pequena do total embarcado pelo Brasil. Em 2025, a região respondeu por cerca de 6,5% do volume exportado e 6,8% da receita. Quando considerados apenas os países mais próximos ao estreito de Ormuz, essa participação cai para menos de 4%.
Apesar do impacto logístico ser considerado limitado, o ambiente de incerteza internacional tem sido citado nas negociações no mercado físico do boi gordo. Alguns frigoríficos chegaram a reduzir temporariamente o ritmo de compras de gado, avaliando possíveis efeitos da escalada do conflito.
Essa postura provocou negociações mais lentas ao longo da semana e reflexos também nos contratos futuros do boi gordo na bolsa. Em São Paulo, por exemplo, a arroba chegou a registrar recuo para cerca de R$ 350, abaixo dos aproximadamente R$ 360 observados anteriormente.
Mesmo diante dessa pressão, pecuaristas seguem resistentes em aceitar novas quedas. Produtores avaliam que a demanda interna continua firme, com bom desempenho das vendas no varejo e reposição de estoques por supermercados e açougues.
As exportações também seguem sustentando o mercado. Em algumas negociações recentes em São Paulo, o boi gordo comum foi vendido próximo de R$ 352 por arroba, enquanto o chamado “boi-China” chegou a cerca de R$ 355.
Esse cenário reforça a percepção de que o mercado vive um momento de disputa entre indústria e produtores. Frigoríficos buscam alongar suas escalas de abate e negociar preços menores, enquanto pecuaristas preferem segurar o gado e esperar melhores oportunidades de venda, mantendo o setor atento tanto ao cenário internacional quanto às condições internas da pecuária brasileira.


