Depois de uma primeira metade de junho marcada por recuperação e preços firmes em praticamente todas as principais praças pecuárias do país, o mercado do boi gordo encerrou a última semana do mês com sinais claros de reversão no movimento de alta. A principal pressão veio justamente de um fator externo que há meses sustentava o mercado brasileiro: a China. Os asiáticos se comportaram como um verdadeiro terremoto no mercado brasileiro da carne bovina.
O cenário mudou rapidamente nos últimos dias. Frigoríficos exportadores passaram a atuar com mais cautela, reduziram agressividade nas negociações e, em algumas regiões, as cotações começaram a recuar. Em São Paulo, por exemplo, a arroba perdeu R$ 6 em apenas sete dias, acendendo alerta entre pecuaristas e agentes do setor.
Mercado físico perde ritmo e frigoríficos diminuem compras
Segundo análise da Safras & Mercado, o mercado físico apresentou pouca fluidez nas negociações nesta sexta-feira, com diversas indústrias praticamente ausentes das compras.
De acordo com o analista Fernando Iglesias, o cenário atual mostra uma posição mais confortável para os frigoríficos.
“As escalas de abate apresentam relativo conforto, posicionadas entre seis e oito dias úteis na média nacional”, destacou Iglesias.
Na prática, isso significa que a indústria reduziu a necessidade imediata de compra, tirando pressão altista que vinha sustentando a arroba nas últimas semanas.
Efeito-China causa terremoto e volta a pressionar o mercado do boi gordo brasileiro
O principal fator de preocupação neste momento está no mercado internacional.
Segundo análises da Scot Consultoria e da Agrifatto, a cota anual chinesa de importação de carne bovina, estimada em 1,1 milhão de toneladas, está muito próxima do limite de preenchimento.
Isso significa que o mercado começa a trabalhar com a possibilidade de aplicação de tarifas adicionais sobre parte das exportações brasileiras destinadas ao país asiático.
Com isso, frigoríficos exportadores passaram a reduzir as compras do chamado “boi-China”, animal que atende exigências sanitárias específicas para exportação.
Hoje, segundo levantamento da Scot Consultoria:
- Boi comum em São Paulo: R$ 342/@
- Boi-China: R$ 347/@
- Ágio atual: R$ 5 por arroba
Mas esse prêmio já começa a perder força diante da cautela das indústrias exportadoras.
Consumo interno fraco agrava pressão nas cotações
Além da questão externa, o mercado doméstico também contribui para o enfraquecimento da arroba.
O fim do mês tradicionalmente reduz o poder de compra das famílias brasileiras, diminuindo o ritmo de vendas no varejo e no atacado. Como consequência, frigoríficos encontram maior dificuldade para escoar carne bovina.
Segundo o analista Felipe Fabbri, da Scot Consultoria:
“Após uma primeira quinzena de preços firmes, a arroba perdeu força, com dúvidas pairando no ar e um clima mais gelado entre os agentes nas negociações.”
A própria Agrifatto aponta que consumidores seguem migrando para proteínas mais competitivas, como carne de frango e suína, movimento bastante comum em períodos de menor renda disponível.
Veja como fecharam as principais praças pecuárias em meio ao terremoto “China”
Levantamento da Safras & Mercado mostrou os seguintes preços médios da arroba:
- São Paulo — R$ 340,42
- Mato Grosso — R$ 337,30
- Mato Grosso do Sul — R$ 332,05
- Goiás — R$ 319,71
- Minas Gerais — R$ 317,65
Apesar da estabilidade em boa parte do país, o mercado já mostra sinais de pressão negativa em algumas regiões estratégicas.
Primeira quinzena de julho pode trazer algum alívio
Nem tudo indica uma tendência prolongada de baixa.
Analistas avaliam que a entrada dos salários no início de julho pode estimular uma recuperação temporária do consumo doméstico, melhorando o giro da carne bovina no varejo.
Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, avalia que esse movimento pode devolver algum suporte ao mercado no curtíssimo prazo.
Já a Scot Consultoria entende que, apesar da pressão atual, não há sinais de uma queda severa como em ciclos anteriores, o que traz um pouco mais de tranquilidade ao pecuarista.
O mercado agora acompanha dois fatores decisivos:
- comportamento das exportações para China;
- reposição do consumo interno na primeira quinzena de julho.
O mercado do boi muda de humor e o produtor precisa redobrar atenção com a China
O fim de junho viveu um verdadeiro terremoto, mas mostra uma mudança importante no sentimento do mercado pecuário brasileiro.
Depois de semanas sustentadas pela exportação e oferta mais ajustada, o boi gordo começa a sentir os efeitos combinados do enfraquecimento da demanda chinesa, desaceleração do consumo interno e frigoríficos operando com escalas mais confortáveis.
Para o produtor, o momento exige monitoramento diário das negociações.
Julho começa trazendo incerteza.



