DE TUDO UM POUCO

Um brinde à sociedade corrupta que “detesta” a corrupção.

Dias atrás encontrei o filho de um seleto amigo no supermercado. Após um breve bate-papo, quando nos dirigíamos ao caixa, ele sem o menor constrangimento acelerou o passo para chegar mais rapidamente ao caixa que é exclusivo para idosos, gestantes e deficientes.  Eu, constrangido com a situação, me dirigi a outro caixa. Algo aconteceu com as compras dele, porque mesmo eu demorando um pouco mais na fila que é comum a todos, nos encontramos no estacionamento. E ele fechou o nosso encontro com “chave de ouro”: caminhou despretensiosamente para seu carro, muito “bem estacionado” na vaga destinada aos deficientes físicos.

O comportamento do jovem, embora repugnante, não foi o que mais me chamou a atenção. O que me deixou pensativo foi ter lembrado que o rapaz, assim como sua família, passou todo o período eleitoral falando e postando sobre um determinado candidato que, segundo ele, acabaria com a corrupção. Inúmeros churrascos de finais de semana em sua casa foram regados com discursos eloquentes de que votariam em candidato tal “porque não suportavam mais tanta safadeza e corrupção no Brasil”. Que um determinado político ou partido eram os responsáveis por todos os males existentes no país. Como se até a chegada desse grupo ao poder, não tivéssemos uma história manchada por corrupção e injustiça social.

Quantas pessoas com a característica deste pobre jovem, conhecemos? Quantas vezes nós mesmos, nos pegamos furando uma fila ou ligando para um amigo influente para conseguir aquela esperada consulta médica, ou quem sabe, para não pagarmos uma multa por dirigir sob o efeito de álcool? Quantas pessoas você conhece que fez o filho mentir sobre a idade para pagar meia no restaurante, parque ou cinema? Conhece algum empresário que não emite nota fiscal quando você compra alguma coisa ou contrata algum serviço? Pois é… Culpar apenas os políticos pelas coisas ruins que acontecem no país não é ingenuidade. É hipocrisia.

Lembro-me do meu tempo de menino, quando nas aulas de História, aprendi o significado da expressão “santo do pau oco”. Para escapar do imposto de 20% que era cobrado pela Coroa Portuguesa sobre todos os metais preciosos que fossem garimpados em territórios brasileiros, os mineiros fabricavam imagens de santos em madeira oca e as recheavam com ouro em pó. E assim, passavam despercebidos pelos postos de fiscalização. O que chama atenção nessa história, é que isso era passado aos alunos como algo positivo. Ou seja, minha geração aprendeu nas aulas de história que criar meios de trapacear para não pagar impostos era uma atitude bacana. Ao invés de protestar, aprendemos a burlar.

Todos os dias, em todos os lugares, seja no trabalho, condomínio, academia, supermercado etc… Deparamo-nos com pessoas raivosas com a corrupção da política brasileira, que, via de regra, apontam seus “dedos julgadores” para determinado político ou partido. Como se a “corrupção metástica”, fosse uma exclusividade de algum determinado grupo. E pior: esses “juízes” cegam seus olhos quando a patifaria vem daquele político ou partido de sua preferência. Quando isso acontece, continuam apontando seus dedos raivosos aos escândalos do grupo político adversário.  Uma indignação seletiva! E pateticamente deprimente.

Vivemos em uma sociedade corrupta em sua raiz. Mas que tem como prática habitual gritar ao mundo sua indignação com a corrupção dos políticos. E depois do desabafo demagogo, pegar seu carro na vaga destinada ao idoso e sair para comprar algum produto sem nota fiscal para que doa menos no bolso. Uma sociedade que odeia a corrupção do vizinho, mas que a aplaude quando se beneficia dela.

Um beijo grande e até a próxima.