Valterlucio Campelo: Nem extraordinário nem imprevisível. Conta outra!

Então a empresa apareceu para dar sua versão sobre a queda da ponte em Sena Madureira. Segundo nota publicada no AC24HORAS, a construtora afirmou que se trata de um fenômeno extraordinário e imprevisível, chamado “terras caídas”. Quase mandou o desastre para a conta do Divino. Temos aqui, oficialmente, um ponto onde ancorar algumas avaliações.

Já que não sou engenheiro civil, fui ver na inteligência artificial (foi criada para isso), o que diabos é esse fenômeno. A resposta é claríssima:

  1. O que são?

As “terras caídas” são um fenômeno típico da Bacia Amazônica (e regiões fluviais semelhantes), conhecido há mais de 50 anos, caracterizado pela erosão intensa na base das margens dos rios durante as cheias, seguida pelo colapso (deslizamento ou queda) do talude durante a vazante. Isso cria instabilidade no solo, que pode comprometer os encontros (abutments) e fundações de pontes, gerando esforços horizontais extras (empuxos não previstos) e levando a colapsos, como visto em casos recentes no Acre.

  1. Como o fenômeno pode ser contido na construção de uma ponte?

As soluções de engenharia envolvem prevenção integrada (estudos prévios, projeto geotécnico robusto conforme normas como NBR 7187 e NBR 11682), proteção das margens e fundações resistentes. Elas combinam abordagens geotécnicas, hidráulicas e, muitas vezes, de bioengenharia.

Exige-se, pelo menos: Estudos e Planejamento Preliminar (essencial para evitar falhas); Proteção e Estabilização das Margens (controle da erosão); Fundações Especiais e Robustas; Medidas Durante e Após a Construção. Quem quiser esmiuçar, faça como eu e terá páginas e páginas que destrincham o evento.

Bem, como se pode ver, trata-se – o fenômeno “terras caídas” -, de mais um dos inúmeros riscos a que estão submetidas as obras de engenharia, conhecido há décadas, cujas medidas de prevenção são bastante factíveis. Nada exatamente sofisticado. Como já sabemos do que se trata, vamos conferir se é um fenômeno imprevisível como alega a construtora. Pergunte à IA: O fenômeno é imprevisível na construção de uma ponte inaugurada há dois anos no Acre?

Não. Para uma ponte inaugurada há apenas dois anos, “terras caídas” e processos de erosão marginal/instabilidade de taludes são riscos conhecidos e, em regra, previsíveis no nível de projeto e gestão.

Para ser considerado imprevisível, deveria ter acontecido sem margem de dúvidas:

Ocorrência de evento extraordinário fora das premissas de projeto; Comprovação de que os níveis, vazões, gradientes e esforços hidráulicos efetivos excederam de forma clara os critérios e margens de segurança definidos no projeto executivo, que no caso, deveriam ser muito amplas.

Já sabemos que do que se trata, do que era necessário para conter e que NÃO era imprevisível. Seria um evento extraordinário?

Também NÃO. “Terras caídas” é um processo ordinário da morfodinâmica de rios meandrantes amazônicos. Só se qualifica como extraordinário quando há forçantes muito acima do envelope histórico e das premissas de projeto/gestão.

Resumo: Se tudo que conseguiram até agora, enquanto o Dr. Edinardo Muniz luta pela vida em uma UTI, foi dizer que se trata de um evento ocorrido fora dos pressupostos e prevenções técnicas adequadas, que jamais poderiam prever ou que foi algo fora dos parâmetros normais e ordinários da construção civil, falharam fragorosamente.

Sabemos que se trata de um ano eleitoral e qualquer deslize pode ser interpretado e explorado politicamente. Um desmoronamento de 36 milhões de reais fresquinhos então, é de fazer cair o sujeito do palanque (pensou o que?). De qualquer forma, é razoável dizer que meias desculpas e saídas tangenciais não resolverão o evento nem tampouco seus efeitos políticos. Aconselha-se buscar e apresentar a verdade, com as ações e omissões correspondentes. Por enquanto não pairam acusações de desvios e propinagem, entretanto, se o troço despencar para a enganação e a falácia técnica, para o empurra-empurra, os ventos podem mudar e atingir em cheio quem já anda tonto.

A sociedade acreana não pode aceitar mais um embuste, venha de onde vier. Por enquanto, a incompetência derrubou a ponte, a confiança foi para a água e resta em pé a esperança que nunca abandona esse povo quieto.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWSe, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

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