De vez em quando observamos na mídia e em certos debates políticos a menção ao “distanciamento” de certos parlamentares federais de suas bases, da “conversa com os eleitores” etc. Parece que estar presente no local de trabalho em Brasília é errado. Trata-se, em primeiro lugar, de um desconhecimento obvio do real papel de um representante no Congresso Nacional e, em segundo, de uma presunção falsa de que a frequência na rua do bairro significa um maior compromisso com o Estado.
É claro que, em anos eleitorais, esse tema vem à tona de modo oportunista. Candidatos e, às vezes, jornalistas, se deixam enredar por essa bobagem demagógica e perdem a oportunidade de educar a população, esclarecendo sobre as funções dos parlamentares federais, sobre os temas em curso no Congresso, sobre o debate político nacional.
De uma vez por todas, é preciso, ainda mais depois do acesso instantâneo à internet, que os eleitores aprendam que os senadores e deputados federais não são vereadores federais, eles não foram eleitos para em Brasília resolverem problemas comunitários, esse papel é dos vereadores mesmo e, se muito, dos deputados estaduais. A pauta federal é outra, muito mais complexa e abrangente.
É certo que alguns congressistas se comportam desse modo, como se fossem vereadores, dando as costas, desconhecendo ou se omitindo dos debates nacionais, concentrando suas energias em questiúnculas paroquiais, alimentando a mídia com repetidas imagens de inaugurações e entregas, na distribuição de cargos no governo e, no máximo, em prometer, direcionar e pedir liberação de emendas. Neste particular, saibam os leitores que todos os anos cada um recebe a mesma cota financeira do orçamento, destina essa cota aos projetos que quer e, daí em diante, após todo o trabalho burocrático do órgão contemplado conforme as exigências das instituições em Brasília, os recursos são liberados, as obras ou aquisições são realizadas e tem aquela festa e a repercussão nos jornais.
É claro que para o nosso estado, com pouquíssima margem para investimento com recursos próprios, as emendas são a salvação da lavoura e, neste sentido, elas têm importância fundamental, mas não é isso que efetivamente diferencia a ação parlamentar, já que todos são colocados em paridade quanto ao valor de que dispõem. A rigor, com exceção do senador Marcio Bittar que, na condição especial de relator do orçamento geral da união, privilegiou o Acre e encheu os cofres locais, a importância relativa de cada parlamentar no orçamento é praticamente a mesma.
Segundo dados oficiais, em 2025 foram liberados mais de 640 milhões de reais em emendas para o Acre. Procurem saber quanto cada parlamentar “enviou” e verão que não há um “Ronaldinho” das emendas. O trabalho relativo à captação de recursos, hoje em dia quase restrito à liberação de emendas, tornou-se quase banal, burocrático, pertence ao rito diário do parlamentar e, para isso, ele conta com sua assessoria e o trabalho dos interessados – governo e municípios. É uma tarefa importantíssima, mas não define sozinho a “qualidade” do nosso representante.
É no debate dos temas nacionais que se revelam os grandes parlamentares, é nas decisões de caráter nacional que ficam assentadas suas opiniões e seus votos nas casas legislativas. Quando o eleitor se dirige para votar em um senador ou um deputado federal faz mais do que eleger um intermediário de recursos, ele elege um intérprete de sua visão de mundo, um procurador para, em seu nome, decidir sobre o tipo de sociedade que queremos para nós e nossos filhos. A democracia depende da atitude que eles tomam lá em nosso nome e não de quantas vezes ele pega um barco no Rio Envira.
O Brasil está afundado de novo na corrupção, né? Pois então? São os parlamentares eleitos permitindo que o mesmo grupo corrupto continue dando as cartas, enfiando a nação em um abismo econômico sem fundo. O Brasil está sendo decidido no STF? Pois é. Foi seu voto que elegeu parlamentares frouxos, descuidados com a república e rendidos ao sistema. Há inocentes presos e perseguidos por crimes que não cometeram? Pois é. Tem muitos parlamentares que trocaram suas consciências por cargos e vantagens e abandonaram a justiça, não querem nem saber desse assunto. Alguns foram votados pela direita, mas traíram o eleitor e votam 100% com o Lula. A lista é infindável e diz respeito aos nossos representantes que se comportam como vereadores federais, interessados apenas na verba que liberam para as suas bases, e não se importam com os destinos do Brasil, ficam lá votando cegamente em quem o governo manda, sem perguntar ao eleitor se é isso mesmo que ele gostaria.
Em 2026 o eleitor terá mais uma chance de reeleger verdadeiros deputados e senadores. De vereadores, bastam os municipais. Nesta crise política que vivemos, queremos e precisamos de representação à altura do Brasil. Portanto, ao invés de procurar seu deputado ou senador na mesa do mercado comendo quibe, tente saber o que ele faz em Brasília, com quem ele andou votando, se apoiou a investigação dos escândalos ou está ajudando a esconder os criminosos, se está procurando os ladrões do INSS ou protegendo Lula, se enfrenta os ditadores supremos ou está de rabo entre as pernas com medo de ser pego. Parlamentar que entrega sua voz e seu voto ao dono da caneta não cumpre plenamente seu papel.
Valterlucio Campelo
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro “Arquipélago do Breve” encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.




