Valterlucio Campelo: “Quero 100% dos presos votando em mim”. Lula

De todas as frases, réplicas e tréplicas do debate deste domingo na Band, uma se destacou pelo simbolismo: “Quero 100% dos presos votando em mim.” A declaração do Lula, abjeta, repugnante, não é apenas uma provocação de debate. Ela suscita perguntas importantes sobre prioridades, valores e responsabilidade pública.

O que pensaram, naquele instante, os pais, mães, irmãos e amigos das vítimas de homicídios, roubos, tráfico e violência sexual? O que sentiram aqueles que convivem com o medo, a perda e a insegurança, problemas que não se resolvem com frases de efeito nem com cálculos eleitorais?

Um candidato que pretende governar não pode tratar a população carcerária como um bloco eleitoral a ser cortejado, sobretudo quando o país exige respostas firmes e responsáveis à criminalidade. É legítimo discutir direitos políticos e condições de voto de pessoas presas, porém, isso não elimina a questão central: que mensagem transmite um líder que transforma os votos dos presos em motivo de celebração eleitoral?

Mais importante ainda é perguntar por que alguém preso apoiaria determinado candidato? A pergunta não autoriza presumir que todo preso seja culpado, nem que todos pensem da mesma forma. Há situações jurídicas distintas, e a responsabilidade penal deve ser apurada com respeito à lei. Mas, no plano político, a frase abre espaço para uma a suspeita legítima de que há afinidade entre esse eleitorado e um discurso que, na percepção de muitos cidadãos, relativiza a gravidade do crime ou trata a punição como um tema secundário. Prisioneiros costumam festejar benefícios.

O combate à criminalidade exige mais do que operações policiais. Requer investigação, prevenção, inteligência, proteção às vítimas, funcionamento eficiente da Justiça e cumprimento das penas previstas em lei. Também exige clareza moral e discurso ético. O Estado deve proteger quem vive sob a ameaça do crime e não transmitir a impressão de que a conveniência eleitoral pesa mais do que a segurança pública.

A escalada da criminalidade no Brasil tem causas múltiplas e complexas. Não se explica por uma única frase ou por um único governo, mas comportamentos políticos lenientes que minimizam a violência, desautorizam medidas legítimas de segurança ou tratam a responsabilização como assunto inconveniente, pois contribuem para enfraquecer a confiança nas instituições e para consolidar a sensação de impunidade. Esse ambiente favorece a expansão do crime e abandona à própria sorte quem mais precisa de proteção.

Por isso, a declaração não deve ser recebida como simples bravata de campanha. Ela pede explicações. Um candidato comprometido com a segurança dos cidadãos deve deixar claro que sua prioridade é proteger a população, enfrentar organizações criminosas e assegurar que a lei seja aplicada com justiça, e não converter a condição de pessoas presas em troféu retórico ou ativo eleitoral.

O debate, afinal, não é sobre negar direitos por conveniência nem sobre condenar indistintamente quem está encarcerado. É sobre responsabilidade política. Quem deseja governar o país precisa demonstrar, sem ambiguidades, que não será complacente com o crime e que não confundirá cálculo eleitoral com compromisso público. Diante de vítimas e famílias que esperam justiça, essa distinção é indispensável.

A política não se comunica apenas por programas e propostas. Comunica-se também por símbolos, gestos e frases que indicam quem é reconhecido como interlocutor, quais grupos são considerados relevantes e quais problemas ocupam o centro da agenda. Sob essa perspectiva, a declaração pode ser entendida como uma forma de sinalização política, ou seja, ao dizer que deseja os votos de todos os presos, o candidato projeta uma imagem de abertura a esse público. 

Esse tipo de sinalização afeta as fronteiras morais que a sociedade constrói em torno do crime. As comunidades dependem de normas compartilhadas para distinguir o que é tolerável do que deve ser sancionado. Quando figuras públicas parecem relativizar a gravidade da violência ou falar da punição apenas como obstáculo político, podem enfraquecer a percepção de que a lei vale para todos e de que a vítima será protegida. Não é necessário que uma frase cause diretamente mais crimes para que ela tenha consequências. Com seus discursos reiterados, Lula ajuda a formar expectativas sobre o que o Estado considera aceitável, urgente ou secundário.

Uma democracia precisa de crítica, controle e respeito aos direitos fundamentais. A leniência de Lula, neste contexto, é minimizar a violência, tolerar a ineficiência, tratar a impunidade como inevitável, desautorizar sem critério medidas legítimas de segurança ou evitar o debate sobre consequências e responsabilização porque ele parece politicamente inconveniente. Quando esse padrão se repete, pode reduzir a confiança na capacidade do Estado de proteger a população e ampliar a percepção de que infringir a lei tem baixo custo.

Comportamentos políticos lenientes e amistosos como o sugerido pela frase não devem ser tratados como detalhes inofensivos. Eles integram um ambiente discursivo mais amplo. Quando a liderança transmite a impressão de que a criminalidade é uma preocupação secundária, de que a responsabilização é sempre suspeita ou de que o eleitorado ligado ao cárcere merece atenção eleitoral sem que se explicite a prioridade das vítimas, o resultado pode ser o aprofundamento da descrença pública. 

Se um candidato pretende reivindicar o voto de todos os presos, deve estar disposto a responder à pergunta que a frase inevitavelmente provoca: como pode assegurar que terá firmeza para enfrentar a criminalidade se transforma em celebração eleitoral o apoio de pessoas que estão sob custódia do Estado? Não basta dizer que todos têm direitos ou que a declaração foi uma brincadeira. É necessário explicar, com propostas concretas, como pretende reduzir a violência, fortalecer a investigação, desarticular organizações criminosas e apoiar vítimas e famílias.

Enfim, ao reivindicar os votos dos criminosos, Lula dá um passo atrás e entrega que pouco ou nada fará para endurecer o combate à violência, embora este seja um tema crucial da vida do brasileiro médio. Uma lástima.

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Valterlucio Campelo

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor  PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.

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