As vendas da indústria de máquinas e equipamentos agrícolas instalada no Brasil em junho tiveram queda de 22,3% em relação ao mesmo mês do ano passado. A decisão dos produtores de aguardar o anúncio de juros menores do novo Plano Safra de 2026/27, divulgado no fim do mês, foi determinante para este resultado. O total das vendas do setor em junho somou R$ 4,97 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. Apesar da queda anual, na comparação com maio houve acréscimo de 8,3%, evidenciando a volatilidade do mercado.
Junho e julho já costumam ser meses de redução nas compras em função da virada da vigência do Plano Safra, mas o efeito foi mais intenso neste ano. “Isso acabou travando as compras principalmente neste ano, com juros menores do novo Plano em relação ao ano passado”, explicou Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq. A espera por melhores condições de financiamento levou produtores a adiar suas decisões de investimento em equipamentos.
A diferença nos juros dos programas de financiamento foi significativa. No ciclo passado, o Moderfrota oferecia juros de 13,5% ao ano. Agora, o novo programa de financiamento às compras de máquinas agrícolas, o Move Agricultura, oferece crédito com juros de 9,2% ao ano. “Os produtores esperam a entrada em vigor dessas condições para comprar máquinas”, acrescentou Bastos. Essa redução de mais de 4 pontos percentuais representa economia significativa para produtores que financiam máquinas de alto valor.
O ritmo de vendas da indústria está fraco desde o início do ano. De janeiro a junho, as vendas do setor tiveram queda de 21,3% na comparação anual, e somaram R$ 26,64 bilhões. Esta trajetória acumulada reflete um cenário desafiador que vem se estendendo pelos primeiros meses de 2026. Diante do resultado, a Abimaq reforçou sua perspectiva de queda de 20% das vendas neste ano, antecipada logo após o governo anunciar o novo Plano Safra.
A rentabilidade das lavouras é o fator de fundo que explica a fraqueza estrutural das vendas. “Se a situação parar de piorar, devemos fechar o ano com queda de 20%, o que ainda é bastante expressivo. Isso ocorre em função da baixa rentabilidade das principais lavouras. Com margens menores, o produtor adia os investimentos e deixa de comprar máquinas”, disse Bastos. A pressão sobre os preços agrícolas, aliada aos custos crescentes de produção, reduz a capacidade e a disposição de investimento dos agricultores.
No segmento de exportações, a situação é mais animadora. Em junho, as exportações do segmento ficaram em US$ 160,67 milhões, um aumento de 17,2% na comparação anual e de 20,9% na comparação com maio. Entre janeiro e junho, as exportações totalizaram US$ 876,6 milhões, crescimento de 17,5%. Isso demonstra que produtores internacionais mantêm interesse por máquinas agrícolas brasileiras, criando oportunidade para fabricantes que conseguem competir no mercado global.
As importações de máquinas e equipamentos agrícolas somaram US$ 124,4 milhões em junho, um aumento de 17,7% na base anual e de 12,5% na comparação mensal. Já entre janeiro e junho, as importações caíram 4,7% na comparação anual, para US$ 626,07 milhões. O aumento recente de importações pode indicar que alguns segmentos do mercado brasileiro buscam máquinas importadas, potencialmente com melhor relação custo-benefício ou especificações diferentes das disponíveis domesticamente.
As vendas mais enfraquecidas são as de colheitadeiras, equipment crítico para a colheita. As vendas de colheitadeiras para usuários finais em junho tiveram queda de 41,4% na comparação com o mesmo mês do ano passado e somaram 140 unidades, enquanto as vendas de fábrica recuaram 78,7%, para 78 unidades. As vendas de colheitadeira para exportação tiveram recuo de 37,5% e somaram 15 unidades. Esta queda expressiva reflete tanto o adiamento de compras como a redução de investimentos em renovação de frotas.
No caso de tratores, o quadro é um pouco menos dramático. As vendas de tratores para o usuário final em junho tiveram queda de 20,8%, para 3.146 unidades, enquanto as vendas de fábrica recuaram 20,7%, para 3.636 unidades. Estas reduções se alinham com a queda geral do mercado. Porém, as exportações de tratores em junho tiveram crescimento de 50,9% na comparação anual, alcançando 620 unidades. Este desempenho em exportações contrasta com a fraqueza do mercado interno.
O cenário atual reflete a dinâmica complexa do agronegócio brasileiro, onde pressões de rentabilidade das lavouras limitam investimentos em máquinas, enquanto mercados internacionais ainda oferecem oportunidades para fabricantes que conseguem manter competitividade. A entrada em vigor do novo Plano Safra com juros reduzidos pode trazer alguma recuperação nas compras, mas a sustentabilidade dessa recuperação dependerá da melhoria das margens agrícolas nos próximos meses.



