Depois de atravessar um dos períodos mais difíceis da história recente da pecuária de corte, os pecuaristas de Mato Grosso começam, finalmente, a enxergar sinais de recuperação no mercado. O alerta, porém, continua ligado. Para o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Nando Conte, a melhora da arroba ainda está longe de compensar o aumento explosivo dos custos de produção acumulados nos últimos anos.
“ Vivemos, na verdade, nos últimos três anos, anos sombrios para a atividade pecuária ”, afirmou o dirigente durante entrevista ao canal Compre Rural. Segundo ele, muitos produtores precisaram “cortar na carne” para sobreviver ao colapso das margens da atividade.
A declaração traduz o sentimento de milhares de pecuaristas brasileiros que enfrentaram uma combinação devastadora de arroba desvalorizada, custos elevados, crédito apertado e pressão sobre a rentabilidade. Em Mato Grosso, maior rebanho bovino do país, o cenário foi ainda mais sensível devido ao peso econômico da pecuária no estado.
Nando Conte lembrou que a arroba da vaca chegou a ser comercializada na faixa de R$ 170 em alguns momentos da crise — patamar considerado inviável diante da disparada dos custos com mineralização, combustível, diesel, suplementação e insumos básicos da produção. “ Foi um período negro para a pecuária, não só de Mato Grosso, mas para a pecuária brasileira ”, reforçou.
Recuperação existe, mas ainda não empolga
Apesar da reação observada em 2026, o presidente da Acrimat avalia que a recuperação ainda é “tímida” diante das perdas acumuladas pelo setor. “ Está melhor de trabalhar, é fato. Mas ainda existe muita recuperação pela frente ”, disse.
A percepção é compartilhada pelo mercado. Nos últimos meses, a arroba do boi gordo voltou a ganhar sustentação em importantes praças pecuárias do país, impulsionada principalmente pela redução da oferta de animais, retomada do consumo interno e força das exportações brasileiras.
Além disso, a pecuária mundial vive um momento de enxugamento de rebanhos em grandes países produtores, o que favorece a competitividade do Brasil no comércio internacional da carne bovina.
Segundo Nando Conte, o atual cenário abre espaço para um ciclo mais positivo da atividade. “ Vejo diminuição de rebanho não só no Brasil, mas também nos nossos principais concorrentes. Isso tende a favorecer o mercado.”
Copa do Mundo, eleições e mais dinheiro circulando
O dirigente também aposta em fatores econômicos e sazonais para sustentar o consumo de carne bovina nos próximos meses.
Entre eles, estão o ambiente eleitoral e a realização da Copa do Mundo, que tradicionalmente aumenta o consumo de proteínas no mercado interno. “Quando tem mais dinheiro circulando na economia, isso migra para o consumo. E consumo significa compra de carne”, destacou.
Mesmo diante das recentes barreiras impostas pela União Europeia à carne brasileira, o presidente da Acrimat minimizou os impactos sobre o setor nacional.
Para ele, a medida tem muito mais relação com protecionismo comercial do que, necessariamente, com questões sanitárias envolvendo antimicrobianos. “ Olho isso com muita desconfiança. Para mim, tem muito mais barreira comercial nisso do que qualquer outra coisa.”

Mato Grosso: uma potência mundial da pecuária
Ao defender a força da bovinocultura mato-grossense, Nando Conte foi direto: se Mato Grosso fosse um país independente, teria o quarto maior rebanho bovino do planeta.
O estado lidera o ranking nacional da pecuária de corte e vive um processo acelerado de modernização da produção, com forte avanço da integração lavoura-pecuária, expansão dos confinamentos e aumento da produtividade por hectare.
“Mato Grosso está no lugar certo. Temos clima, solo e vocação para a pecuária.”
Nos últimos anos, o avanço da intensificação produtiva permitiu ganhos importantes ao setor. O uso crescente de confinamentos e sistemas integrados reduziu a idade média de abate dos animais, hoje concentrada entre 24 e 36 meses — indicador considerado estratégico para elevar eficiência e qualidade da carne.
O estado também ampliou sua capacidade de terminação intensiva, aproximando-se de Goiás, referência nacional em confinamento bovino.
Pecuarista resiliente
Mesmo após anos de forte pressão financeira, o presidente da Acrimat acredita que o produtor rural brasileiro continua sustentado por duas características históricas: resiliência e otimismo. “ Meu finado pai dizia: ‘não solta o rabo da vaca’. Esse é o momento de perseverar ”, afirmou.
A mensagem final do dirigente foi direcionada especialmente aos pecuaristas que sobreviveram ao ciclo de baixa e agora tentam reorganizar caixa, investimentos e produção. “Tem muita coisa boa para acontecer tanto neste ano quanto no próximo para a pecuária brasileira e para Mato Grosso.” – finalizou Nando.



