Você sabia?

Você sabia que a América foi literalmente cortada ao meio?

Para chegarmos ao ponto de cortar literalmente o continente ao meio, temos de um lado a descoberta de ouro nos EUA e sua grande corrida na Califórnia que durou décadas e milhares de famílias migraram para o oeste para extrair o metal, o que revolucionaria a história norte-americana. Do outro lado estavam os interesses do Panamá, que na época era apenas um departamento da Colômbia e enfrentava a Guerra dos Mil Dias para lutar por sua independência.

Uma ideia ousada

O desafio para os EUA era transportar o ouro extraído pelos cinco mil quilômetros da Costa Oeste para a Costa Leste, onde o país era mais desenvolvido. No início do século XX as ferrovias não estavam mais dando conta de tanta carga e navios cada vez maiores foram sendo construídos por sua capacidade de transporte. O problema era que como a América é um extenso continente de terra horizontal, os navios teriam que percorrer grandes distâncias para chegar de um lado ao outro, já que indo pelo Norte enfrentariam as geleiras do Ártico, que fariam da navegação algo inviável. A solução era ir pelo Sul, passando pela ponta da Argentina, dando a volta e subindo todo o continente pelo Atlântico, trajeto que demorava meses para ser concluído.

O atalho fluvial feito pelos Estados Unidos/Reprodução

Foi aí que o governo norte-americano encontrou uma solução que seria um desafio para a engenharia na época: se conseguissem cortar o continente ao meio, o trajeto seria feito na metade do tempo e o problema seria revolvido, mas como conseguir algo tão extraordinário assim? O primeiro país a ter essa ideia na verdade foi a França, em 1880, que com estudos de geografia percebeu que uma parte do Panamá possuía uma pequena faixa de terra, e em poucos quilômetros se poderia ir do Oceano Atlântico ao Pacífico. Mas os franceses acabaram desistindo do projeto pelos altos custos do desafio. Os EUA, por sua vez, decidiram resgatar essa ideia e fizeram uma ousada proposta à Colômbia: desenvolver um projeto de engenharia para literalmente cortar esse pedaço de terra ao meio, a fim de que um canal fosse criado e os navios pudessem passar de um lado para o outro. Sem ver, porém, vantagem no acordo, o senado colombiano recusou a proposta.

Se não vai fazer por bem, vai fazer por mal

Com a recusa do governo colombiano em aceitar o projeto, o presidente norte-americano Theodore Roosevelt, se aproveitando da guerra civil na Colômbia, decidiu alimentar nos rebeldes panamenhos o desejo pela independência. Ele então ofereceu o apoio da Marinha norte-americana para fazer a guarda do Panamá na guerra, em troca da autorização para construir o canal, e os panamenhos aceitaram. Em 3 de novembro de 1903 declararam sua independência, e o navio canhoneiro norte-americano U.S.S. Nashville, que já se encontrava em águas panamenhas, impediu toda e qualquer tentativa de interferência do governo da Colômbia, que por medo de entrar em uma guerra contra os EUA foi obrigado a aceitar a independência do Panamá.

O Canal do Panamá

Obra é uma das sete maravilhas da engenharia moderna/Reprodução

Como combinado, logo após sua independência, um avançado projeto de engenharia começou a ser colocado em prática para cortar o Panamá ao meio, criando um canal para atravessar o continente de forma mais rápida, tendo sido usados em sua construção 13,6 milhões de quilos de explosivos para abrir caminho. Para reduzir a quantidade de trabalho necessário para a escavação do canal foi criado um lago artificial chamado Lago de Gatún, a 26 metros acima do nível do mar. Em certo ponto da travessia são usados bloqueios e eclusas para ajudar os navios a atravessar. Após dez anos de construção, o Canal do Panamá foi inaugurado em 15 de agosto de 1914, com incríveis 77,1 quilômetros de extensão, e a parte mais estreita com 90 metros de largura. Para atravessar o Canal do Panamá, um navio leva em média de 8 a 10 horas.

Anualmente, cerca de 10 a 15 mil embarcações transitam pelo canal, transportando o equivalente a 9 trilhões de dólares em mercadorias. O pedágio pago pela travessia chega a incríveis 1 milhão de dólares, dependendo do tamanho de sua carga. A grandiosidade de sua construção lhe rendeu o título de uma das sete maravilhas da engenharia do mundo moderno.