O crédito rural brasileiro está passando por uma transformação silenciosa, mas que ajuda a explicar o novo momento vivido pelo agronegócio nacional. Em vez de recorrer aos financiamentos apenas para custear a produção, comprar insumos ou renovar máquinas, a maior parte dos produtores tem direcionado os recursos para ampliar seu patrimônio e aumentar a escala de produção.
Um levantamento inédito realizado pela corretora Friggi & Secco, com base em operações realizadas junto a 29 pecuaristas e 75 agricultores, revela que 92,8% dos créditos contratados pelos clientes da empresa tiveram como destino a expansão de terras agrícolas. O dado evidencia uma mudança importante na estratégia financeira do produtor brasileiro, que enxerga a terra como um dos principais ativos para garantir crescimento de longo prazo.
Agro vive momento favorável para expansão
O resultado surge em um cenário de forte crescimento do agronegócio brasileiro. Segundo estimativas da Conab, a safra brasileira de grãos 2025/26 deverá alcançar 358,6 milhões de toneladas, estabelecendo um novo recorde nacional.
Ao mesmo tempo, o setor continua ampliando sua presença internacional. Apenas no primeiro trimestre de 2026, as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 38,1 bilhões, maior resultado já registrado para o período. Em abril, os embarques atingiram US$ 16,65 bilhões, crescimento de 11,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Os números reforçam o peso econômico do setor. O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) alcançou R$ 1,4 trilhão em maio, sendo:
- R$ 908,8 bilhões provenientes das lavouras;
- R$ 510,2 bilhões da pecuária.
Já o crédito rural empresarial contratado dentro do Plano Safra 2025/26 chegou a R$ 354,4 bilhões até fevereiro, avanço de 7% sobre igual período da safra anterior.
Crédito deixa de ser ferramenta de sobrevivência
Para Alberto Ferreira Friggi, CEO da Friggi & Secco, o comportamento observado demonstra uma mudança estrutural na forma como o produtor administra seu negócio.
Segundo ele, ainda existe a percepção de que o crédito rural serve principalmente para financiar despesas da safra, mas a realidade encontrada no campo é bastante diferente.
“Existe uma leitura equivocada de que o crédito no agro está sempre associado ao custeio, compra de sementes, plantio ou maquinário. Isso existe, claro, mas o que vemos na prática é um produtor que já sabe produzir, domina sua operação e busca ampliar escala. Quando 92,8% das operações estão ligadas à expansão de terras, o mercado está dizendo que o crédito virou uma estratégia de crescimento, não apenas de sobrevivência.”
Na avaliação do executivo, mesmo em momentos de margens mais apertadas, produtores mais capitalizados continuam enxergando a terra como um investimento estratégico.
Terras rurais continua sendo um dos ativos mais valorizados do agro
Além de representar patrimônio, a aquisição de novas áreas aumenta diretamente a capacidade futura de produção e oferece maior flexibilidade para diferentes sistemas produtivos.
Segundo Alberto Friggi, a tecnologia permitiu avanços expressivos na produtividade agrícola nos últimos anos, mas ainda existe espaço para crescimento via expansão territorial.
“O produtor que já possui know-how sabe que pode crescer de duas formas: aumentando a produtividade dentro da mesma área, com tecnologia, eficiência e gestão, ou ampliando sua área produtiva. Nos últimos anos, a tecnologia elevou muito a produtividade, mas a expansão de terras continua sendo uma das formas mais claras de aumentar capacidade, diversificar riscos e preparar a operação para ciclos maiores.”
Brasil mantém vantagens competitivas únicas
Na avaliação da corretora, o interesse pela compra de terras também está diretamente relacionado às vantagens estruturais do Brasil na produção mundial de alimentos.
O país reúne características difíceis de serem reproduzidas por outros grandes produtores globais, como ampla disponibilidade territorial, clima favorável, agricultura tropical altamente tecnificada e forte inserção no mercado internacional.
Segundo Alberto Friggi, investir em terras significa investir na capacidade futura de gerar alimentos.
“O Brasil possui uma vocação muito difícil de replicar: escala territorial, clima, tecnologia tropical e presença internacional em alimentos. Quando o produtor acessa crédito para comprar ou ampliar áreas, ele não está apenas adquirindo terra. Está comprando capacidade futura de produção em um mercado que continua essencial para o Brasil e para o mundo.”
Movimento pode indicar tendência para os próximos anos
Embora o levantamento represente a carteira de clientes da Friggi & Secco e não todo o mercado brasileiro, o estudo oferece um retrato relevante sobre o comportamento de produtores que continuam investindo mesmo diante de juros elevados e maior seletividade na concessão de crédito.
A predominância das operações destinadas à expansão territorial indica que parte significativa do setor aposta na valorização das terras agrícolas e na continuidade da demanda global por alimentos como pilares para o crescimento do agronegócio brasileiro nas próximas décadas.
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