Valterlucio Campelo: Orlando Sabino tem razão, mas não disse tudo

Nesta quinta-feira, o renomado (com méritos) economista Orlando Sabino publicou um artigo no site ac24.horas (AQUI), cujo título “O Orçamento do Acre ficou mais rígido” entrega a rapadura – não há dinheiro, simples assim.

Faço aqui uma espécie de endosso ao Orlando Sabino e, data vênia, vou adiante para desdobrar a sua corretíssima conclusão em perspectiva, vis a vis os planos dos candidatos ao governo entregues ao TRE. A eles, somo o inevitável arrocho fiscal previsto para 2027, independentemente de quem seja vitorioso para a presidência. Na tabela abaixo faço um resumo do artigo referido.

Tabela 1 – Resumo do artigo

IndicadorValorLeitura
RCL 2020 → 2026R$ 5,7 bi → R$ 11,5 biDobrou em 6 anos
Espaço fiscalEm quedaRigidez crescente do orçamento
Gasto com pessoal46,55% da RCLEstourou o limite prudencial (LRF)
Funções institucionais15,8% → 19,7%Orçamento engessado em despesa obrigatória
FPE / Receita própria56,7% / 25,7%Receita própria caindo (era 27,6%)
Renúncia fiscalR$ 583 mi em 2026≈ 20% do ICMS
TCE-ACNotificações ativasAlertas de caixa e de pessoal

      FONTE: Elaboração do autor

A melhor síntese é: O Acre não arrecada pouco, apenas perdeu a liberdade de gastar. O problema deixou de ser receita e virou rigidez, logo, nenhum candidato pode mais prometer “arrecadar mais”, ele precisa prometer reconstruir o espaço fiscal.

Então, é o seguinte: O candidato a governador que prometer expansão financiada por Brasília está prometendo o impossível. Com o orçamento estadual rígido, o único discurso tecnicamente defensável precisa dizer que vai recuperar o espaço fiscal próprio. Como é que faz isso? Algumas medidas rigorosamente necessárias, senão obrigatórias: Revisão da renúncia fiscal (R$ 583 milhões); recondução do gasto de pessoal (LRF); renegociação previdenciária; redução da dependência do FPE; novo pacto fiscal (regras de rigidez); PPPs/concessões/securitização.

Uma pergunta se impõe: Qual entre os candidatos foi, em seu plano, consequente em relação a esse desafio primeiro e inevitável? Tião Bocalom nem trata do assunto, pisa no acelerador dos gastos; Mailza Assis defende a continuidade, o que significa fluxo sem controle e também acelera; Thor Dantas a menciona indiretamente, mas não enfrenta com ações efetivas. A rigor, apenas Alan Rick trata da questão, prometendo auditoria, recondução aos limites e ajuste. Disso se pode inferir que alguns candidatos estão dispostos a gastar sem culpa. Se vier o arrocho fiscal em nível federal, a tabela abaixo demonstra o baque possível.

Tabela 2 – Consequências do arrocho fiscal

Item do arrochoCanal de transmissãoVariável atingida no Acre
FPE menor/congeladoTransferência constitucionalReceita corrente (56,7% do total)
Corte de convêniosTransferência voluntáriaInvestimento discricionário
Corte de emendasTransferência vinculadaObras e custeio específicos
Suspensão de financiamentosOperação de créditoCAPAG / espaço para investir
Alta de jurosRolagem da dívidaDespesa financeira / caixa
Contingenciamento de obras federaisInfraestrutura no territórioBR-364, aeroportos, hospital
Desaceleração econômicaBase tributária própriaICMS, IPVA, ITCMD
Corte de cofinanciamento socialFundos de repasse (SUS/SUAS)Saúde e assistência
Perda do CRP/CAPAGCondicionantes fiscaisAcesso a todo o resto

      Elaboração do autor

Sendo assim, como o governador gastador, sem espaço fiscal, vai cumprir suas promessas mirabolantes? Não vai, e sabe disso. Os candidatos prometedores estão enganando o eleitor desenhando um cenário irreal. Financiamento público não se faz no gogó, plano de governo não é carta de boas intenções (não deveria). No caso acreano, o candidato a hóspede do Palácio Rio Branco nos próximos 4 anos que não observar as limitações orçamentárias produzirá um estelionato eleitoral.

Esse tema, aliás, deveria ser prioritário nos meios jornalísticos que farão as rodadas de debates e entrevistas. Perguntinhas tolas sobre intenções e achismos óbvios deveriam ser trocadas por apertos que os obriguem a dizer de onde sairá o dinheiro. Essa coisa tão ridícula quanto simplista de que “o dinheiro dá” só cabe na cabeça de energúmenos.

Prestem atenção na tabela acima e será facinho perceber que não há céu tranquilo no horizonte. A realidade é dura. Cada item é uma bordoada nas pretensões de candidatos que normalmente são bons em fazer diagnósticos e vender sonhos, mas péssimos em fazer contas. A administração de uma crise como a que se avizinha, causada pelo desvario fiscal do lulopetismo, não é para quem “tem um sonho”, é para quem sentou-se diante da planilha e analisou o orçamento.

No máximo, sejamos honestos, se fizer o que deve ser feito, o governador poderá situar o Acre em uma posição de reinício do seu desenvolvimento assentado em um projeto austero, que ponha fim, ou, pelo menos, diminua, o clientelismo, o patrimonialismo, o desperdício e a corrupção que acompanham a nossa história. E nem aprofundamos a questão previdenciária que nos arranca 1 bilhão anualmente. Fica para a próxima. 

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

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