O agronegócio brasileiro enfrenta uma mudança importante na forma de lidar com o clima. Cerca de 95% das áreas agrícolas do país ainda dependem diretamente das chuvas, enquanto apenas aproximadamente 5% contam com irrigação. Em um cenário de temperaturas mais elevadas e precipitações cada vez mais irregulares, garantir água nos momentos críticos das lavouras passa a ter peso crescente na estratégia dos produtores.
A própria Embrapa alerta para os efeitos dessa transformação. O aumento das temperaturas tende a elevar a demanda de água pelas plantas e as perdas por evaporação, enquanto alterações na quantidade e na distribuição das chuvas podem fazer com que a umidade naturalmente armazenada no solo não seja suficiente para sustentar altas produtividades.
Isso não significa que todos os produtores precisarão instalar sistemas de irrigação. A questão é que água, reservação e eficiência no uso do recurso estão se tornando variáveis cada vez mais importantes na gestão do risco agrícola. A irrigação passa, portanto, a ser analisada não apenas como uma ferramenta para aumentar a produtividade, mas também como uma forma de reduzir a exposição às oscilações climáticas.
O Brasil já possui uma estrutura significativa de agricultura irrigada. Dados apresentados pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, com base no Atlas Irrigação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, apontam aproximadamente 8,2 milhões de hectares equipados para irrigação no país.
O potencial de expansão, porém, é muito maior. Estudos da ANA e do MIDR apontam potencial irrigável de até 55 milhões de hectares, considerando fatores como disponibilidade hídrica, características do solo, clima e infraestrutura. O número não significa que toda essa área possa ou deva ser irrigada imediatamente, já que a expansão depende de água disponível, viabilidade econômica, infraestrutura e planejamento das bacias hidrográficas.
Uma das principais evidências desse avanço está na expansão dos pivôs centrais. Levantamento da ANA apontou que o Brasil já havia ultrapassado 30 mil pontos-pivôs em 2022, cobrindo 1,92 milhão de hectares. Entre 2010 e 2022, a área equipada com esse sistema cresceu 225%. Em 2024, informações reunidas pelo MIDR indicavam aproximadamente 2,2 milhões de hectares irrigados por pivôs.
A expansão também está concentrada nas principais regiões agrícolas do país. Em 2022, 92,5% da área equipada com pivôs centrais estava concentrada em apenas seis estados: Minas Gerais, Goiás, Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso. O Cerrado respondia sozinho por 70,4% da área brasileira irrigada por pivôs centrais.
Além de reduzir os efeitos de períodos de estiagem, a irrigação permite uma mudança importante na utilização da terra. Na safra 2021/22, a ANA identificou duas safras em 56,5% da área ocupada por pivôs, enquanto uma terceira safra apareceu em 18,2% da área equipada. Apenas 8,7% registraram uma única safra.
Esse ganho de intensidade altera a própria conta econômica do produtor. O investimento deixa de ser analisado apenas pela produtividade de uma cultura e passa a considerar também a possibilidade de realizar duas ou três safras, reduzir riscos climáticos e aumentar o aproveitamento da propriedade. Segundo o MIDR, dependendo das condições e das culturas utilizadas, áreas irrigadas podem produzir de duas a três vezes mais do que sistemas de sequeiro.
Mas a expansão da irrigação traz um desafio: irrigação não cria água. A agricultura irrigada já representa o maior uso de água no Brasil, respondendo por aproximadamente 46% das retiradas de recursos hídricos e 67% do consumo. Por isso, uma expansão sem planejamento pode aumentar a pressão justamente sobre regiões onde a disponibilidade hídrica já é limitada.
Antes de investir em equipamentos, o produtor também precisa considerar a regularização do uso da água. Dependendo da fonte e das características da captação, podem ser necessárias autorizações e outorga de direito de uso dos recursos hídricos. A disponibilidade da água, o custo de energia, o tipo de cultura, a produtividade esperada e a possibilidade de novas safras entram diretamente na avaliação de viabilidade.
A mudança climática torna essa equação ainda mais complexa. Quanto mais irregular se torna o regime de chuvas, maior tende a ser a importância da irrigação como complemento, mas também cresce a pressão sobre os recursos hídricos. Para um país no qual a grande maioria das áreas agrícolas ainda depende das precipitações, o debate deixa de ser apenas sobre produzir mais. Passa a ser sobre como garantir estabilidade, produtividade e segurança para o agro quando a chuva deixa de chegar exatamente no momento em que a planta precisa dela.



