Presidente da Aprosoja Brasil defende menos dependência da China e mais industrialização da soja brasileira

A produção de soja brasileira atravessa um momento de expansão e transformação, com avanço para novas fronteiras agrícolas, crescimento da industrialização e aumento da participação do agronegócio na matriz energética. Em entrevista ao Brazil Economy, o presidente da Aprosoja Brasil, Fabricio Morais Rosa, avaliou os principais desafios do setor e defendeu uma atuação baseada em diálogo técnico, segurança para o produtor e diversificação dos mercados.

Segundo o executivo, a soja e o milho tiveram papel decisivo no desenvolvimento do interior do país e continuam impulsionando novas regiões produtoras. Além do Mato Grosso, estados como Maranhão, Bahia, Tocantins, Piauí, Pará e Roraima vêm registrando expansão. O movimento também acompanha o avanço da industrialização, especialmente na produção de biocombustíveis.

Ao comentar a relação com o governo Lula, Fabricio afirmou que a Aprosoja mantém uma postura pragmática e técnica. Segundo ele, propostas apresentadas pela entidade passaram a ser incorporadas pelo governo, entre elas a criação de um fundo garantidor para produtores sem problemas de inadimplência, mecanismo que pode ampliar o acesso ao crédito rural mesmo quando as garantias patrimoniais já estão comprometidas.

Para o presidente da Aprosoja Brasil, a atual relação com o governo também mostra que o agronegócio não pode ser definido por uma única preferência política. “Agro 100% Bolsonaro é coisa do passado. Somos apolíticos e, hoje, prezamos por esse pragmatismo técnico de ajudar o governo, em vez de atacar. Estamos todos no mesmo avião. Se cair, morre todo mundo”, afirmou.

Outro ponto destacado na entrevista foi o seguro rural. A entidade trabalha junto à Frente Parlamentar da Agropecuária para que o Projeto de Lei 2.951/2024, de autoria da senadora Tereza Cristina, avance ainda neste ano. Fabricio defendeu, porém, que a política de proteção vá além das grandes catástrofes climáticas e contemple também a proteção da renda e das margens dos produtores.

De acordo com o dirigente, o aumento dos custos de produção combinado à queda dos preços agrícolas tem pressionado a rentabilidade do setor. Muitos produtores passaram duas ou três safras utilizando suas reservas financeiras e agora enfrentam dificuldades para manter investimentos e custeio. Para ele, uma política mais estruturada de seguro poderia reduzir a dependência do financiamento bancário.

A soja também ganhou importância na transição energética brasileira. Fabricio destacou que aproximadamente 33% da energia renovável produzida no Brasil tem origem no agronegócio, por meio de cadeias como cana, milho e soja. Ao mesmo tempo, o país importa cerca de 30% do diesel consumido internamente, o que abre espaço para uma maior participação dos biocombustíveis.

No comércio exterior, a principal preocupação da Aprosoja Brasil não está nas tarifas norte-americanas, mas na dependência do mercado chinês. A China pode responder por até 80% das compras da soja brasileira em determinados anos. Segundo Fabricio, o país asiático já sinalizou em seu planejamento estratégico uma intenção de reduzir as importações do grão, o que exige atenção do produtor e das entidades do setor.

Apesar disso, o executivo avalia que o Brasil possui condições para absorver uma eventual redução da demanda chinesa. Europa, outros países asiáticos e Oriente Médio vêm ampliando suas compras, enquanto o mercado interno também apresenta oportunidades por meio da produção de biodiesel e da industrialização da soja.

Fabricio defendeu ainda que o Brasil avance na transformação da matéria-prima dentro do próprio território. Em vez de concentrar as exportações no grão ou no farelo, o país poderia ampliar a instalação de usinas de biocombustíveis e outras indústrias ligadas à cadeia da soja, especialmente no interior.

Para o presidente da Aprosoja Brasil, essa estratégia permitiria ao país agregar mais valor à produção e reduzir riscos associados à concentração das exportações em poucos mercados. A expansão da soja, a industrialização, a diversificação comercial e uma política mais eficiente de seguro rural aparecem, assim, como peças centrais para a próxima etapa do agronegócio brasileiro.

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