A bolha: o curioso caso da cegueira seletiva

Há uma curiosa estratégia em curso na política: antes de enfrentar uma liderança, procura-se diminuir sua existência. Não se discutem suas ideias, suas ações ou seus resultados. Discute-se sua suposta irrelevância. Diz-se que vive numa “bolha”, que perdeu aliados, que não cresce, que não chegará lá.

É uma técnica antiga. Primeiro constrói-se uma narrativa; depois espera-se que a realidade se adapte a ela.

Foi exatamente isso que encontrei ao abrir alguns blogs nesta manhã. Sem fontes, sem pesquisas, sem demonstrações consistentes, repetiam-se prognósticos sobre os limites eleitorais da vice-governadora Mailza Assis. Falava-se da perda de espaços políticos, da impossibilidade de crescimento e até do risco de perder regiões onde, convenhamos, ela jamais reivindicou possuir hegemonia eleitoral.

Ora, ninguém perde aquilo que nunca teve.

Esse detalhe, aparentemente simples, revela muito mais sobre quem escreve do que sobre quem é objeto da crítica.

Quem conhece minimamente a política acreana sabe que alianças se reorganizam permanentemente. Apoios surgem, desaparecem e retornam conforme as circunstâncias. Defecções em início de governo nunca foram novidade. Fazem parte da dinâmica do poder.

Mas suspeito que a questão verdadeira seja outra.

A pergunta que alguns ainda evitam formular é esta: como uma mulher sem sobrenome político tradicional, sem pertencer às velhas estruturas familiares que durante décadas influenciaram a política acreana, pode tornar-se competitiva numa disputa pelo governo?

Talvez aí resida o desconforto.

O Acre, como tantas outras regiões do Brasil, ainda carrega traços profundos de uma cultura política marcada pelo personalismo e, muitas vezes, pelo machismo. Ainda parece causar estranhamento quando uma mulher conquista protagonismo por uma trajetória construída no trabalho e não pela herança de um grupo político consolidado.

Entretanto, eleições não são vencidas apenas por estruturas partidárias ou por apoios institucionais.

Eleições são vencidas quando uma ideia encontra abrigo na imaginação das pessoas.

Discurso não é simplesmente falar. Discurso é produzir sentido. É comunicar uma visão de futuro capaz de dialogar com os desejos, as inquietações e as esperanças da população. Quando isso acontece, o ambiente político muda. Os adversários deixam de disputar apenas votos; passam a disputar narrativas.

Foi justamente por essa razão que decidi observar Mailza antes de emitir qualquer juízo sobre ela.

Não me interessavam os rótulos.

Interessavam-me as ações.

Durante sua atuação à frente da área social, chamou-me atenção uma característica pouco comum na política contemporânea: a ausência da necessidade permanente de transformar cada gesto em espetáculo.

Recordo-me particularmente do caso de uma criança do interior do Estado. Não houve apenas um atendimento médico. Houve mobilização da estrutura pública para transportar a criança e sua mãe, garantir tratamento, acompanhar o retorno ao município de origem e, sobretudo, modificar as condições sociais da família para que o problema não voltasse a se repetir.

O mais significativo não foi o episódio em si.

Foi a decisão de transformar aquela experiência em protocolo administrativo para orientar futuras ações da Secretaria.

É aí que a política deixa de ser evento e se torna método.

Não conheço muitas formas mais inteligentes de governar.

Costumamos celebrar governantes que inauguram pontes, asfaltam ruas e erguem edifícios. Tudo isso é necessário. Mas existe outra infraestrutura igualmente importante: aquela que aproxima o Estado das pessoas mais vulneráveis.

Essa não aparece facilmente nas fotografias oficiais.

Aparece na vida de quem foi alcançado por ela.

Por isso me parece precipitado reduzir uma liderança política à expressão “bolha”. Talvez alguns estejam olhando apenas para as articulações do poder enquanto outros começam a perceber algo diferente acontecendo na base da sociedade.

Não sei quem vencerá a próxima eleição.

Nenhum articulista sério pode afirmar isso.

Mas sei reconhecer quando uma narrativa nasce do preconceito e quando uma avaliação nasce da observação.

A democracia precisa de crítica. Precisa de fiscalização. Precisa de imprensa livre.

Mas precisa também de honestidade intelectual.

Porque, no fim das contas, uma liderança não deve ser medida pelo volume do barulho que produz, mas pela profundidade das marcas que deixa na vida das pessoas.

E talvez seja exatamente por isso que alguns insistem em chamá-la de bolha.

Enquanto outros começam a enxergar nela uma possibilidade.

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