O mercado do boi gordo iniciou julho em um ambiente completamente diferente daquele observado ao longo do primeiro semestre. Depois de meses marcados pela valorização da arroba, impulsionada pela forte demanda internacional e pelas exportações recordes, o setor passou a conviver com um movimento de ajuste que reduziu o ritmo das negociações e devolveu poder de barganha à indústria frigorífica.
A principal razão para essa mudança está diretamente ligada ao comércio exterior. A proximidade do esgotamento da cota anual de exportação de carne bovina para a China levou diversos frigoríficos a reduzirem a capacidade de abate, conceder férias coletivas em algumas unidades e desacelerar as compras de animais terminados, provocando queda nas cotações em praticamente todas as principais praças pecuárias do país.
Exportações continuam fortes, mas indústria já se prepara para um período mais lento
O cenário chama atenção porque acontece justamente após o melhor mês de junho da história para as exportações brasileiras de carne bovina.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), analisados pelo Cepea, mostram que o Brasil embarcou 279,7 mil toneladas de carne bovina in natura em junho, maior volume já registrado para o mês. A média diária alcançou 13,3 mil toneladas, crescimento de 16% sobre junho de 2025 e de 45% em relação ao mesmo período de 2024.
Além do volume recorde, o preço médio das exportações também atingiu o maior patamar do ano, com a tonelada negociada a US$ 6.537,55, elevando a receita mensal para aproximadamente US$ 1,82 bilhão.
Na prática, parte desse desempenho ocorreu justamente porque importadores anteciparam embarques antes do encerramento da cota chinesa livre da tarifa adicional.
Safras & Mercado: frigoríficos reduziram abates para ajustar produção
Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, a indústria entrou em modo de ajuste.
Com menor expectativa para os embarques destinados à China no terceiro trimestre, frigoríficos passaram a reduzir o ritmo de compras e, em diversas regiões, anunciaram férias coletivas para adequar a produção ao novo cenário.
A consultoria destaca que o primeiro semestre foi marcado por intensa volatilidade provocada pelas constantes mudanças envolvendo a salvaguarda chinesa, obrigando frigoríficos e pecuaristas a reagirem rapidamente às alterações do mercado. Diante desse ambiente, Iglesias recomenda que produtores utilizem instrumentos de proteção de preços para reduzir riscos.
Boi gordo caiu nas principais praças pecuárias
O movimento de correção foi amplo durante junho.
Entre os principais mercados monitorados pela Safras & Mercado:
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- São Paulo: R$ 335/@, queda de 5,63%;
- Goiânia (GO): R$ 320/@, recuo de 3,03%;
- Uberaba (MG): R$ 315/@, baixa de 3,08%;
- Dourados (MS): R$ 320/@, retração de 8,57%;
- Cuiabá (MT): R$ 330/@, queda de 7,04%;
- Vilhena (RO): R$ 320/@, baixa de 4,48%.
Já levantamento da Agrifatto mostra que, no início de julho, novas quedas foram registradas em diversas praças monitoradas, refletindo aumento da ociosidade das plantas frigoríficas e menor demanda por animais terminados.
Copa do Mundo não conseguiu impulsionar o consumo
Tradicionalmente, períodos de Copa do Mundo costumam estimular o consumo de carne bovina graças ao aumento dos churrascos entre os brasileiros.
Neste ano, porém, o efeito foi bastante limitado.
Segundo a Safras & Mercado, o mercado atacadista também registrou queda nos preços durante junho, já que a carne bovina perdeu competitividade frente a proteínas mais baratas, principalmente a carne de frango.
No fechamento do mês:
- Quarto dianteiro caiu para R$ 21,00/kg;
- Cortes do traseiro encerraram junho em R$ 25,50/kg.
Scot Consultoria vê pressão em julho e agosto, mas aponta possível recuperação
Apesar do ambiente mais pressionado, parte do mercado acredita que esse movimento pode ter duração limitada.
De acordo com o zootecnista Felipe Fabbri, da Scot Consultoria, julho e agosto devem permanecer sob pressão, mas a dinâmica tende a mudar a partir de setembro.
A expectativa é que frigoríficos voltem a formar posições para atender a cota chinesa de 2027, quando as exportações novamente poderão ocorrer sem a tarifa adicional de 55%, o que pode reacender a demanda por animais terminados.
Em São Paulo, segundo a Scot, as cotações encerraram a primeira semana de julho em:
- Boi gordo comum: R$ 333/@;
- Boi China: R$ 338/@;
- Vaca gorda: R$ 312/@;
- Novilha gorda: R$ 325/@.
Radar Investimentos aposta na perda gradual da pressão no mercado do boi gordo
Outra avaliação semelhante vem da Radar Investimentos.
Em entrevista ao programa Mercado Pecuário, o zootecnista Douglas Coelho afirmou que o impacto provocado pelo fim da cota chinesa tende a diminuir conforme o mercado absorver o novo cenário.
Segundo ele, fatores como a entressafra, o avanço do confinamento, o comportamento das exportações e a recuperação gradual do consumo interno deverão definir o comportamento da arroba nos próximos meses.
Mercado segue atento ao segundo semestre
O mercado pecuário entra no segundo semestre dividido entre dois movimentos.
De um lado, a desaceleração temporária das exportações para a China, a maior ociosidade da indústria e a pressão sobre a arroba mantêm o ambiente cauteloso para os pecuaristas.
De outro, os fundamentos estruturais continuam relativamente positivos. As exportações brasileiras seguem em níveis historicamente elevados, a demanda internacional permanece firme e boa parte das consultorias acredita que o atual movimento representa um ajuste de curto prazo, e não uma mudança definitiva de tendência.
A evolução das compras chinesas, o comportamento do consumo doméstico e o ritmo dos confinamentos serão determinantes para definir se a arroba encontrará sustentação ainda no terceiro trimestre ou se a recuperação ficará concentrada apenas na reta final de 2026.


