Sou do tempo em que os eventos mais importantes de uma campanha eleitoral eram os comícios. Na cidade onde eu morava havia um fenômeno particular que eram as vigílias. As lideranças partidárias se revezavam durante a noite inteira em discursos inflamados. Bons oradores driblavam a censura, outros, nem tanto, alegravam o populacho. No final, já pela manhã, a dispersão dava sinais em bandeiras da cor verde (oposição). O pessoal da direita não tinha essa força.
Já aqui no Acre, pelos anos 80, eu mesmo ajudei a organizar vários comícios. Oradores como Aluízio Bezerra se esmeravam. A rigor, não lembro de grandes oradores, mas, ao seu modo, cada um dava seu recado. Havia, especialmente na zona rural, o levar e trazer gente das colônias, desmontar estruturas… era uma trabalheira danada.
O tempo passou, a lei se adaptou, os recursos tecnológicos surgiram, a campanha se mudou para a televisão e o rádio, depois, para a internet, e as ruas se esvaziaram quase totalmente. A não ser, claro, pelas carreatas e o balançar de bandeiras, pagos de algum modo.
No Acre de 2026 a vedete é a carreata. Não sei dizer quanto custam, quanto abastecimento de combustível é generosamente distribuído, mas sabemos todos que a chamada é geral. Quem ocupar cargo comissionado no governo é automaticamente convidado a participar, sem precisar de apito nem de reunião arriscada (todo mundo tem um celular para gravar algo). Nas prefeituras, a mesma coisa. Chefe chamou, comissionados a postos.
Tudo isso para, ao final, ouvir os discursos empolgados e aplaudir a oratória dos candidatos, aplaudir suas promessas de redenção do Acre, suas convicções sobre governos honestos e democráticos, suas experiências de eficiência na administração pública, certo? Errado. Ninguém está nem aí para o que dizem ou pensam os candidatos. O esforço todo é para demonstrar força. Quem fez a carreata maior em Cruzeiro do Sul? E em Sena Madureira? E a apoteose de Rio Branco? Pronto. Com essa resposta o eleitor fica sabendo para qual lado a banda toca, acredita que aqueles candidatos são aprovados e preferidos pelo povo e, por isso, serão eleitos. Será?
Duvido muito. Creio sinceramente que, atualmente, carreatas funcionam como torneio de fisiculturismo. Cada um dos competidores exibe em nível máximo sua musculatura definida, ensebada, e monstruosamente grande, enquanto o principal é atrofiado – o discurso, o programa, a narrativa, o debate, as responsabilidades. Mas o eleitor está vendo, ele percebe que aquele desfile de camionetes não conversa com ele.
Nada contra os fisiculturistas. Temos no Acre um campeão que fez dessa função uma forma de ganhar a vida honestamente. O problema está com as carreatas anabolizadas, que servem para gerar imagens e impressionar incautos dispostos a seguir a manada e seguir o cortejo.
O pior de tudo isso é que, enquanto durante a semana se prepara a carreata do sábado ou domingo, os problemas reais da população ficam na gaveta, aguardando, quem sabe, alguma provocação de um jornalista fora do script. Os que desejam a continuidade se esquivam de explicações como se não tivessem nada com os problemas, com a corrupção, com a queda da ponte, com a falência do sistema de saúde, com as crateras nos ramais, com a asfixia orçamentária, com o rombo na previdência. Parece que “importante” é que fez a maior carreata, o que significa a “aprovação” pelo povo. Isso tem nome, mas é feio, não vou dizer.
Para quem não tem a musculatura anabolizada por milhares de cargos comissionados no governo ou na prefeitura, resta insistir no chamamento ao debate, às soluções possíveis, ao espírito técnico que o momento exige, ao enfrentamento da questão do desenvolvimento. Ao invés da força, a mente. Ao invés da carreata, o debate público. Em frente!
Valterlucio Campelo
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.
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