Eleições municipais e a teatralidade das pré-candidaturas

Estamos, mais uma vez, em anoeleitoral. A “festa da democracia brasileira” começa a ter seus contornos:pré-candidaturas, listas partidárias sendo montadas, legendas correndo atrás decandidatos… Tudo em conformidade com o roteiro, porém, você já parou parapensar como o momento pré-eleitoral organiza e até mesmo define uma ou mais eleições?Falo da teatralidade de certos candidatos e como eles colhem vantagens nopós-eleição, sendo, muitas vezes, vitoriosos sem sequer terem sido candidatosde fato.

Nesta época do ano, vemos, com frequência, o surgimento daquelas figuras que sempre aparecem numa eleição e, muitas vezes, nunca saem candidatas. O exemplo mais emblemático é o do jornalista e apresentador José Luiz Datena: ano após ano, Datena se coloca à disposição para participar do pleito, porém, sempre acaba desistindo. No caso do apresentador, talvez o que ocorra seja uma insegurança que o leva a desistir, porém, candidatos assim existem aos montes e, muitas vezes, a lógica é bem clara: a pessoa se coloca à disposição para chamar atenção da sociedade e dos grupos políticos, almejando um melhor encaixe no jogo eleitoral.

No jogo da política brasileira, as eleições sempre são um grande palco italiano onde a teatralidade dos políticos aflora e desfila.

Diversas vezes, o pré-candidato éum vereador que sabe que não ganhará como prefeito, mas almeja service-prefeito. Em outros casos, a ideia é a troca de apoio, pois aqueles 2% ou3% podem fazer diferença numa eleição apertada. O pré-candidato mostra seupotencial almejando que alguém o procure para que ele desista da candidaturaprópria em troca de uma participação na futura gestão. A grande questão aquinão é, necessariamente, participar da eleição diretamente, mas sim garantirfrutos provenientes dela de forma direta ou indireta.

Além dos pré-candidatos que quase nunca saem candidatos, temos também os políticos que sempre saem e nunca ganham. A lógica é, basicamente, a mesma: muitas vezes o político sai candidato só para mostrar seu “poder de fogo” e, regularmente, trocando apoio no segundo turno. A ideia aqui é ter uma barganha maior, participando mais ativamente da gestão e montando uma estrutura futura para uma eleição futura. Um exemplo extremamente válido é o de Simone Tebet, do MDB, que saiu candidata à Presidência da República e hoje é ministra do Planejamento e Orçamento no governo Lula.

Ainda sobre esse ponto, muitos doscandidatos já são políticos em exercício, ocupando cadeiras na esfera estaduale federal, o que leva a questionar: qual o sentido da candidatura? A resposta ésimples: reeleição! Além da estrutura política que pode ser montada através dabarganha de cargos e participação na gestão, é válido ressaltar que a memóriaeleitoral é algo muito sensível, visto que parte significativa dos eleitoresnão lembra em quem votou nas últimas eleições. Dessa forma, o político queaparece no “meio do caminho” tem mais chance de ser lembrado. Um casointeressante é o do ex-prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet, que perdeu suareeleição para Rafael Greca em 2016, porém, foi o deputado federal mais votadoem Curitiba no ano de 2018, com 80.307 votos.

No jogoda política brasileira, as eleições sempre são um grande palco italiano onde ateatralidade dos políticos aflora e desfila, porém, não podemos perder de vistaos bastidores, pois é na coxia que o jogo acontece.

Pedro Felipe Silva é Cientista Político, com especialização em Políticas Públicas e acadêmico de Direito.

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