Entre em qualquer debate político contemporâneo ou examine as seções de comentários do espaço público digital e você notará um padrão alarmante: a completa impermeabilidade à mudança de perspectiva. Diante de um dado empírico que destrói sua narrativa, o agente ideológico moderno não recua, ele opera um malabarismo retórico para imunizar suas crenças, recorrendo a teorias conspiratórias, culpando a mediação editorial ou atacando a validade do mensageiro: a realidade factual perdeu o direito de voto no tribunal das bolhas ideológicas. Essa obstinação dogmática, contudo, não constitui um subproduto inédito dos algoritmos das redes sociais. Há oitenta anos, o filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994), ao publicar A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), antecipou, com precisão cirúrgica, essa patologia da racionalidade política.
Considerado um dos mais vigorosos defensores da democracia liberal e pai do Método Hipotético-Dedutivo, Popper aplicou o seu método ao historicismo marxiano, elegendo Karl Marx como seu interlocutor mais complexo e nuançado. Distante do anticomunismo vulgar, Popper nutria profundo respeito pelo impulso ético e humanitário de Marx, reconhecendo a validade de sua tentativa precursora de analisar as mazelas socioeconômicas do capitalismo industrial do século XIX.
Para Popper, o erro trágico de Marx não residia em suas intenções morais, mas na adoção da matriz metodológica historicista e dialética herdada de Hegel, que acabou por converter o socialismo de uma hipótese sociológica legítima em uma profecia secular dogmática, um sistema fechado de crenças projetado para explicar absolutamente tudo e que, por essa exata razão, perdeu a capacidade de explicar qualquer coisa.
O critério da demarcação e a anatomia do dogma
Para compreender como uma teoria política se degenera em dogma, é preciso recorrer ao critério de demarcação científica que Popper consolidou em sua epistemologia. Segundo o autor, o estatuto científico de uma hipótese não é aferido pela acumulação de infinitas instâncias de confirmação, mas sim por sua condição de falseabilidade ou refutação empírica.
Uma teoria legítima opera uma divisão assimétrica da realidade, estabelecendo com clareza quais estados de coisas ela proíbe e quais ela autoriza; caso os eventos formalmente proibidos pela teoria venham a se manifestar no mundo observável, a hipótese é falseada e deve ser abandonada ou substancialmente reestruturada.
O marxismo original, pondera Popper, nasceu sob o signo dessa cientificidade genuína, na medida em que formulou predições históricas altamente arriscadas, específicas e logicamente testáveis sobre a dinâmica do capital. As leis do desenvolvimento materialista previam, textualmente, que a contradição interna do capitalismo geraria a pauperização absoluta e progressiva do proletariado, a eliminação dos estratos sociais intermediários e a consequente deflagração de uma revolução socialista inevitável nos países de industrialização avançada, como a Inglaterra e a Alemanha.
O nó cego do materialismo histórico e o recurso às hipóteses ad hoc
O desenrolar do século XX, todavia, encarregou-se de entregar uma realidade factual radicalmente distinta daquela deduzida nas escrivaninhas do materialismo histórico. Em vez de testemunhar a miséria absoluta da classe operária e o desaparecimento da classe média, o Ocidente assistiu à expansão sem precedentes do estrato social intermediário, à emergência do sindicalismo institucionalizado, à conquista do sufrágio universal e à consolidação do Estado de Bem-Estar Social, intervenções eminentemente políticas que demonstraram a autonomia da esfera pública sobre a determinação da infraestrutura econômica.
Diante dessa maciça refutação empírica escancarada pelos fatos históricos, os sucessores de Marx depararam-se com um dilema metodológico fundamental: admitir o erro lógico e descartar o determinismo historicista da teoria ou salvá-la a qualquer custo. Optando pela segunda via, intelectuais como Lênin e Rosa Luxemburgo recorreram ao que Popper conceitua como estratagema convencionalista, introduzindo hipóteses ad hoc cujo único propósito lógico era blindar o núcleo da doutrina contra as anomalias da realidade.
A formulação da Teoria do Imperialismo serviu precisamente a esse fim, argumentando retroativamente que os operários das nações centrais não haviam deflagrado a revolução porque a burguesia metropolitana passara a suborná-los com os superlucros extraídos da exploração colonial na periferia global. Ao absorver toda e qualquer contradição por meio desses remendos teóricos auxiliares, o marxismo perdeu sua assimetria lógica, se o trabalhador empobrecia, a previsão de Marx se cumpria, se o trabalhador prosperava, tratava-se de um suborno imperialista. Ao tornar-se compatível com qualquer comportamento observável, a teoria deixou de ser ciência e converteu-se em uma moldura imunizada de dogmatismo ideológico.
O espelho da infalibilidade: a replicação do erro lógico
O aspecto mais perturbador do diagnóstico popperiano reside no fato de que a infalibilidade do materialismo histórico se transformou em uma patologia formal que pode sequestrar qualquer espectro político. Ao observarmos a dinâmica das militâncias e das câmaras de eco no debate contemporâneo da esquerda, testemunhamos a replicação exata desse estratagema convencionalista.
Toda realidade é explicada pelas relações de produção, por novas forças totalizantes, abstratas e intangíveis, como as agendas das elites ocultas dotadas de uma onipotência quase divina. Quando confrontados com dados empíricos recalcitrantes, sejam indicadores econômicos oficiais, decisões institucionais ou evidências científicas robustas que contrariam a narrativa pré-estabelecida, os agentes desse ecossistema não revisam suas premissas teóricas; em vez disso, acionam hipóteses ad hoc sob a forma de teorias conspiratórias para anular o valor de face do fato.
Se a realidade factual desmente a tese da militância, o fato é imediatamente rotulado como uma falsificação orquestrada pelo sistema; se a realidade a confirma, a tese é celebrada como verdade do Materialismo-histórico-dialético. O sistema, portanto, nunca perde e jamais pode ser testado, operando sob uma lógica perversamente circular onde a ausência de provas de uma conspiração passa a ser interpretada como a prova máxima de quão perfeita, oculta e perigosa é essa conspiração.
Conclusão
Na obra Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Popper nos revela que a maior ameaça à liberdade não reside na escolha de um programa político específico, mas sim na adesão a uma matriz epistemológica absolutista. Ao desmascarar a transmutação do marxismo de uma hipótese sociológica arriscada para uma teodiceia secular imune à refutação, Popper expõe o perigo de se subordinar a contingência histórica a supostas leis férreas de desenvolvimento.
O fechamento da sociedade, em última análise, é precedido pelo fechamento da mente dogmática, um fenômeno formalmente idêntico tanto na engenharia utópica holística do século passado quanto nas dinâmicas de radicalização do debate público atual. A preservação de uma sociedade aberta exige o resgate do pensamento crítico, no qual as instituições públicas e as convicções ideológicas não são tratadas como verdades eternas a serem idolatradas, mas sim como hipóteses provisórias destinadas à eliminação constante de erros por meio do confronto honesto com a realidade empírica.
Assim, as palavras de Popper permanecem, portanto, como advertências tão atuais quanto no tempo em que foram escritas, a realidade histórica não é uma dinâmica determinista, é o resultado imprevisível da responsabilidade moral de indivíduos livres que aceitam a coragem de errar, aprender e corrigir a rota.


