Por que o agro precisa contar melhor sua história

Como um setor que alimenta o país, move bilhões e responde por uma parcela gigantesca do PIB ainda enfrenta dificuldades para contar sua própria história? O agronegócio brasileiro encerra mais um ano pressionado por um cenário que exige comunicação mais madura, estratégica e contínua. O setor segue avançando em tecnologia, produtividade, digitalização e sustentabilidade, mas ainda luta para traduzir esses progressos de modo claro para a sociedade. Isso se reflete em estudos de percepção que apontam distância entre o que o agro faz e o que o público urbano entende. É um desafio que não nasce da produção, mas da narrativa.

Esse contexto ganha ainda mais força quando se considera a transformação digital que avançou de forma decisiva. Hoje, cerca de 70% dos produtores utilizam smartphones e internet para decisões de negócio, gestão de riscos, contratação de serviços e acesso a informações de mercado. A tecnologia é um eixo central da operação rural. Essa conexão levou o agro a outro patamar: deixou de ser apenas produção e logística e passou a ser também conteúdo, dados, transparência e reputação.

Mesmo assim, existe um descompasso evidente entre o peso econômico do setor e sua capacidade de comunicar avanços, esclarecer temáticas sensíveis e construir confiança pública. Apesar de representar aproximadamente um quarto do PIB nacional, o agro continua enfrentando resistência na opinião pública, sobretudo nos grandes centros urbanos. Estudos e análises apontam que existe uma verdadeira barreira de imagem ao agronegócio brasileiro, especialmente relacionada à pauta ambiental e à forma como o setor é percebido nos mercados internacionais. Temas como uso de insumos, impactos ambientais, desmatamento e rastreabilidade seguem gerando desconfiança porque faltam contexto, didatismo e narrativa. O setor produz, entrega e inova, mas muitas vezes não explica. E reputação não se sustenta apenas no que se faz, mas no que se comunica com clareza.

As tendências que moldaram 2025 não ficam para trás com a virada do calendário. Pelo contrário, elas pavimentam 2026 com ainda mais exigência. Sustentabilidade, rastreabilidade, agricultura digital, bioeconomia, automação, dados em tempo real, comunicação transparente, origem comprovada e conteúdo técnico acessível devem pautar marcas, produtores, empresas e instituições no próximo ano. É um ecossistema em que tecnologia e narrativa passam a ser inseparáveis. E comunicar bem se torna tão estratégico quanto produzir bem.

As grandes marcas do agro já entenderam essa lógica e vêm evoluindo suas estratégias de comunicação. JBS, BRF e Cargill reforçam discursos de sustentabilidade, segurança alimentar e metas ambientais. Bayer e Syngenta investem em conteúdo técnico traduzido para linguagem simples, explicando inovação, manejo e agricultura regenerativa. John Deere transformou tecnologia e automação em narrativa emocional sobre futuro e produtividade. Raízen articula comunicação corporativa com temas de transição energética e bioeconomia. Todas operam com a mesma premissa: reputação é construção diária, método e explicação.

É justamente aqui que as relações públicas se tornam fundamentais. O agro precisa de ponte com a sociedade, voz qualificada na mídia, produção de narrativas baseadas em dados, capacidade de resposta rápida e coerência institucional. A imprensa ajuda a ocupar o debate público com fatos, contexto e informação técnica. Relações públicas estruturam reputação, gerenciam riscos, constroem vínculos de longo prazo com formadores de opinião, fortalecem marcas e organizam o diálogo com diferentes audiências. Sem esses pilares, o setor continuará produzindo muito, mas comunicando mal.

O aumento do interesse do público urbano confirma essa necessidade. Em 2025, programas dedicados ao campo ampliaram a audiência e voltaram a ocupar as primeiras posições no Ibope. O consumidor das capitais quer entender o que há por trás da comida, da energia, da tecnologia agrícola e das decisões que afetam preço, abastecimento e meio ambiente. O campo, que antes era tema de nicho, tornou-se interesse nacional.

Essa virada de percepção não é recente. A campanha Agro é Pop ajudou a romper a barreira simbólica entre o urbano e o rural,

destacando a presença do agro no cotidiano. A campanha abriu caminho para que o setor deixasse de ser percebido apenas como produtor de commodities e passasse a ser entendido como ciência, tecnologia, pesquisa, inovação e impacto direto na vida das pessoas. Criou um imaginário de orgulho e pertencimento que impacta até hoje a forma como a sociedade enxerga o agro.

E quando o assunto é comunicar no lugar certo, o papel das publicações especializadas se torna ainda mais evidente. Revistas como a Conexão Safra, que há anos traduzem a complexidade do agronegócio para produtores, gestores e lideranças, são parte essencial desse ecossistema. Elas ajudam a sustentar o debate, qualificam a informação e conectam o agro aos públicos que realmente importam.

Quando se observa esse conjunto, o retrato é claro: o agronegócio brasileiro vive uma mudança de época. Encerra 2025 consolidando sua digitalização, reconhecendo seus desafios, experimentando alta no interesse do público e entrando em 2026 pressionado por tendências que exigem mais transparência, mais diálogo e mais presença. A reputação do agro não será construída apenas por produtividade ou cifras. Ela dependerá da capacidade de traduzir tecnologia, práticas, impactos e valores em uma narrativa única, compreensível e contemporânea. O setor sabe produzir como poucos. Agora precisa aprender a comunicar com a mesma competência.

Lucas Rezende | Especialista em gestão de crise e de reputação

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