Sorgo vira o grão da vez com a demanda da China

Há cerca de quinze anos, o agricultor Ivan Roberto Brucceli, de Quirinópolis (GO), decidiu experimentar uma nova cultura, até então, pouco valorizada no país: o sorgo. A escolha não veio por acaso, ocorreu devido a problemas com a cigarrinha — praga que ataca o milho e compromete a produtividade das lavouras. Além disso, questões climáticas também influenciaram na decisão. 

Desde então, o agricultor conta que reserva, em média, 500 hectares para semear o cereal. “O sorgo entra naquelas áreas onde tem muita pressão de cigarrinha e o milho não produz bem. Tem o benefício também da cultura aguentar mais estresse hídrico. Não é que vai produzir sem chuva, mas segura um pouco mais que o milho”, explicou ao Agro Estadão.

Para o produtor, a recente abertura do mercado chinês para o sorgo brasileiro, a partir de 2026, acendeu um otimismo. “Mercado novo sempre ajuda. Se aumentar a procura, o preço melhora, e até o milho pode ser beneficiado”, afirma.

A crescente demanda chinesa é um fator que indica o potencial de expansão do sorgo no Brasil. Dados compilados pela Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho) mostram que, atualmente, o mercado interno chinês consome cerca de 99% do sorgo que produz — em 2024 foram 4,4 milhões toneladas colhidas no país asiático. Na China, o sorgo é usado na produção do baijiu, bebida destilada tradicional feita a partir de grãos e comparada à cachaça brasileira. 

Expansão do sorgo no Brasil

Produção nacional do cereal chegou a 6,1 milhões de toneladas. Foto: Adobe Stock
Segundo a Abramilho, nos últimos cinco anos o Brasil passou de 2 milhões para 5,5 milhões de toneladas, alcançando o 3º lugar mundial na produção desse grão. Estima-se que, até 2030, o país atinja a marca de 10 milhões de toneladas, podendo se igualar aos Estados Unidos, o maior produtor mundial de sorgo.

Somente na última safra (2024/25) a área semeada no país avançou 11,8% frente à temporada anterior. E a produção chegou a 6,1 milhões de toneladas, de acordo com levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O volume é 37,9% superior em comparação com o mesmo período da temporada anterior (4,4 milhões de toneladas).

E, se antes o ditado popular dizia que “o sorgo acaba com a terra”, por extrair muito nutriente, Brucceli indica uma mudança, usando uma metáfora da conta bancária. “Toda cultura exige reposição. Você tira, tem que devolver. Se cuidar do solo, o sorgo responde bem”, enfatiza. Com a colheita 2024/25 encerrada em julho, o agricultor já projeta repetir os 500 hectares do cereal na temporada 2025/26. “Hoje é uma cultura que dá segurança. Não é mais só o plano B”, garante. 

Versatilidade do sorgo

O engenheiro agrônomo Frederico José Evangelista Botelho, chefe adjunto de transferência de tecnologia da Embrapa Milho e Sorgo, destaca que a expansão do cereal no Brasil se deve à demanda de mercado interno. “O sorgo é utilizado na alimentação humana, por apresentar características importantes, como o fato de não conter glúten. Também é usado na produção de forragem e alimentação para animais”, detalhou. 

Inclusive, o sorgo colhido pelo agricultor de Quirinópolis (GO) é destinado a um confinamento próximo da propriedade. A venda é firmada por um contrato. “A vantagem é que não precisamos vender para longe, para outras regiões, evitando custo com frete. Às vezes, quando o produtor precisa colher rápido e levar o sorgo para um armazém distante, ele acaba pagando um frete caro e ainda enfrenta despesas altas de armazenagem”, disse. “No caso do confinamento, temos um contrato estabelecido: entregamos o sorgo e recebemos o preço acordado, que normalmente é definido lá em janeiro”, acrescentou. 

Além da ração, o sorgo pode ainda ser usado na produção de etanol. “Regiões como o Matopiba, no oeste da Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins, têm limitações para cultivo de safrinha, e o sorgo se mostra uma das principais opções para essas áreas”, sinaliza o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo.

Desafios

Para evolução constante da cultura, entretanto, há desafios a serem superados no campo e na pesquisa. Um deles é a baixa competitividade do sorgo frente ao milho. Atualmente, o custo para cultivar um hectare de sorgo gira em torno de R$ 2.300 — praticamente a metade do milho (R$ 4.500/ha). Porém, o preço de comercialização também é menor: “a saca do sorgo costuma ficar cerca de 20% abaixo da do milho”, diz o agricultor. 

Há ainda entraves técnicos. O produtor cita a dificuldade no controle de ervas daninhas e a falta de herbicidas dedicados à cultura. “O sorgo ainda não é transgênico. Então, o produtor precisa fazer rotação de culturas, se não, a lavoura acaba ficando com muita erva daninha. Esse é um dos grandes desafios da cultura hoje. Além disso, existem poucos produtos registrados para o seu manejo”, aponta Brucceli.

Contudo, o pesquisador da Embrapa pondera que a estatal investe em melhoramento genético e desenvolvimento de cultivares mais adaptadas aos diversos sistemas de produção do Brasil. De acordo com ele, apesar de ser uma cultura ainda pouco adotada, a expansão do sorgo tem incentivado empresas a desenvolverem tecnologias e produtos específicos, como herbicidas e defensivos, antes limitados apenas a culturas como milho e soja. “O mercado sólido e o aumento da demanda estão dando segurança para o produtor investir na cultura”, salienta.

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