A economia rural do Vale do Purus apresenta sinais de enfraquecimento em atividades tradicionais e enfrenta dificuldades para aproveitar melhor a produção e ampliar a renda gerada na própria região. Levantamento do Fórum Empresarial do Acre divulgado em outubro aponta quedas expressivas na produção de mandioca, leite e madeira. O estudo também identifica gargalos de infraestrutura, beneficiamento e comercialização que limitam o desenvolvimento de Sena Madureira, Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus.
O dado mais expressivo está na produção de mandioca. Em 2025, os três municípios somaram aproximadamente 49,9 mil toneladas, contra 265,1 mil toneladas em 2014. A redução foi de 81,2% em pouco mais de uma década. Sena Madureira, que concentra a maior produção regional, registrou a queda mais acentuada, de cerca de 229 mil para 37,2 mil toneladas, um recuo de 83,8%.
O estudo aponta como fatores o baixo retorno financeiro diante do trabalho exigido para produzir farinha, a transferência de mão de obra e de áreas para o cultivo de café e a escassez de trabalhadores rurais. Essas explicações foram identificadas durante a pesquisa de campo e representam percepções dos entrevistados, não causas comprovadas estatisticamente.
O levantamento também chama atenção para a distância entre a capacidade produtiva e o aproveitamento comercial da mandioca. A estimativa apresentada indica que a produção potencial de farinha supera o consumo domiciliar da região e até o estadual. Nesse cenário, ampliar o beneficiamento, melhorar a padronização e alcançar novos mercados são apontados como caminhos para fortalecer a cadeia.
A atividade leiteira também recuou. A produção dos três municípios caiu 20,8% entre 2020 e 2024, passando de aproximadamente 3,2 milhões para 2,54 milhões de litros. Sena Madureira concentra a maior parcela, mas também apresentou retração, de 2,598 milhões para 1,926 milhão de litros.
O leite tem importância para a agricultura familiar. Com base em dados do Censo Agropecuário de 2017, o estudo identificou 623 estabelecimentos leiteiros na microrregião, dos quais 83% eram ligados à agricultura familiar. Entre os obstáculos está a dificuldade de coleta diária, especialmente por causa das condições dos ramais. Uma das alternativas sugeridas é instalar resfriadores em pontos estratégicos, o que permitiria concentrar a entrega e facilitar o transporte até os laticínios.
A extração de madeira em tora também perdeu espaço na economia regional. Em Sena Madureira, a produção caiu de 100,1 mil metros cúbicos em 2014 para 16,8 mil em 2024, redução de 83,2%. A participação dos três municípios na produção estadual diminuiu de 30,7% para 10,5% no mesmo intervalo.
Apesar da queda, Sena Madureira ainda é o quarto maior produtor de madeira em tora do Acre. O município tem 12 galpões, cerca de 12 marcenarias e uma serraria de maior porte. O levantamento, porém, identifica poucas empresas efetivamente ativas, além de dificuldades para regularizar a madeira proveniente de propriedades rurais e aproveitar resíduos que poderiam ser usados pela indústria.
Em meio à retração de algumas cadeias, a castanha-do-brasil aparece como um dos principais ativos econômicos da região. Em 2024, Sena Madureira produziu 1.669 toneladas, o equivalente a 16,8% da produção acreana, com valor estimado em R$ 9,5 milhões. O desafio é ampliar o processamento local. O estudo identificou uma unidade de beneficiamento no município que emprega entre 40 e 50 trabalhadores, mas poderia processar mais. Segundo um empresário entrevistado, parte da matéria-prima vai para compradores do Peru e da Bolívia, que pagam à vista e antecipam recursos aos extrativistas.
O café apresenta trajetória de crescimento. Em Sena Madureira, a produção passou de 42 toneladas em 2014 para 115 toneladas em 2025, e Manoel Urbano registrou 102 toneladas no último ano. Apesar do avanço, a atividade ainda está concentrada em poucos produtores e depende de assistência técnica e organização para ampliar sua participação na economia regional.
As condições de transporte aparecem como um problema que atravessa diferentes atividades econômicas. O estudo cita dificuldades na BR-364 e nos ramais, com impactos sobre o escoamento da produção, a coleta de leite e o acesso dos produtores aos mercados. Dados do Índice de Condição de Manutenção do DNIT, de setembro de 2024 a agosto de 2025, indicavam que 64% dos quilômetros monitorados entre Sena Madureira e Manoel Urbano estavam, em média, em condições ruins ou péssimas. No eixo Manoel Urbano e Feijó, o percentual chegava a 100%.
O levantamento defende investimentos em infraestrutura, assistência técnica, estruturas de armazenamento e beneficiamento e maior articulação entre produtores, empresas e instituições. A avaliação é que o Vale do Purus tem atividades com potencial econômico, mas precisa superar entraves que dificultam a transformação da produção em renda. O estudo foi elaborado com dados públicos, informações institucionais, entrevistas e visitas técnicas. A pesquisa de campo presencial foi realizada em Sena Madureira, enquanto Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus foram analisados com base em dados secundários, sem visitas presenciais nesta etapa.


