Valterlucio Campelo: Corrupção e eleições – tudo a ver

Nos últimos dias o debate eleitoral no Acre começou a focar em uma questão fundamental – a corrupção no governo. Antes tratada marginalmente, com o cuidado de quem carrega ovos de tartaruga, o mau uso do dinheiro público que deveria ser o ponto número um de todas as campanhas, andava sumido. Vai ver era por causa da força dos envolvidos.

Eis que, puxado pelos candidatos Alan Rick e Thor Dantas, principalmente, o assunto veio ao centro do debate. Também, pudera. Temos no Acre o único caso de candidatura de um ex-governador processado, julgado e condenado a 26 anos de cadeia por diversos crimes conexos que podemos etiquetar em um – corrupção. Não do tipo trivial, de desvio ocasional de um servidor, mas sistêmico, envolvendo vários de seus assessores em várias frentes e com sentença unânime em tribunal superior.

A própria candidatura do ex-governador ao senado é uma incógnita. Vai acontecer sub-júdice? E, se ganhar, vai valer ou será cassada em seguida? O petista Jorge Viana vai ficar quieto ou agir com seus declarados amigos no STF para deletar o Gladson da eleição e assumir como terceiro colocado (a julgar pelas pesquisas)? Essa insegurança decorre da insistência do governador que a toda hora tem a PF à sua porta e, ainda assim, se coloca em plena campanha como se soubesse de algo que ninguém mais sequer cogita.

Para surpresa de ninguém, hoje, terça-feira, 22 de setembro, mais uma vez a PF teve trabalho. Desta, em duas frentes, uma como desdobramento da Operação Ptolomeu e, outra, em cima do IMAC. Mais adiante foram encontrados 1 milhão de reais pertencentes a um candidato a deputado estadual. Na semana passada foi a Secretaria de Educação e suas traquinagens costumeiras. A sociedade acreana nem se espanta mais com essas operações. De espetaculosas passaram a rotineiras em um Estado tomado pela corrupção como um corpo em metástase.

Aliás, é preciso considerar esse momento da política brasileira, em que a corrupção parece normalizada. Nos últimos quatro anos, o troço extrapolou o lulopetismo e contaminou nada menos que o Supremo Tribunal Federal. Em outras bandas superiores já se sabia de eventos da espécie, mas jamais o cidadão médio supôs que no ápice do poder da república, aqueles senhores vetustos dançariam na boquinha da garrafa do Vorcaro em festas despudoradas.

A impressão que fica é de que o lulopetismo fez transbordar sobre a sociedade brasileira uma enorme torrente de lama, como uma represa de rejeitos rompida, soterrando tudo que encontra pela frente. Somente algumas edificações muito sólidas podem resistir, e elas estão em processo de extinção. A ética foi substituída pelo oportunismo.

Um pouco de filosofia talvez sirva para o momento. Lembremos o filósofo alemão Imannuel Kant, para quem a constituição republicana (separação de poderes, império da lei, representação) é a única compatível com a liberdade. A corrupção generalizada inverte a república: o poder legislativo e executivo, sob guarda do STF, deixa de expressar a vontade geral e passam a servir interesses privados, corrompendo o próprio fundamento da legitimidade política.

Observando o Brasil contemporâneo, Kant diria que a corrupção generalizada não é “falta de fiscalização” nem “cultura política”, mas a substituição sistemática da lei moral pela inclinação imediata, uma patologia que torna o Estado ilegítimo aos olhos da razão prática. Provavelmente, uma solução kantiana não passaria apenas por punição, mas por republicanização das instituições e publicidade dos atos públicos, condições de possibilidade de qualquer ordem justa.

Como se poderia seguir neste sentido elegendo os mesmos? Como é possível combater a corrupção votando na continuidade? Ponham os mesmos urubus sobre as mesmas carnes e eles farão a mesma festa. Não é preciso ser letrado para saber disso, portanto, não se compreende que essa gente, daqui pra lá e de lá pra cá, esteja “bem na fita”, concorrendo em condições de serem eleitos, a não ser pela observação de que a corrupção também se derrama sobre o processo eleitoral, vilipendiando o eleitor.

Em qualquer bairro de qualquer cidade acreana nos próximos dias o observador verá a distribuição de valores, sejam diretamente em moeda corrente, seja em favores ou contratações de “cabos eleitorais” transformados em rebanhos. Há gente pedindo férias ou fazendo acordo com o patrão para participar da esbórnia eleitoral. Em um mês com a bandeira na mão ou assediando transeuntes, pode-se ganhar mais de 4 vezes o salário-mínimo ganho trabalhando.

A rigor, isso não é um processo eleitoral legítimo. Quem não possui ou não está disposto a utilizar os meios e o “poder da máquina” como alguns preferem chamar essa avalanche de sujeira, precisa acreditar que o discurso e o estoque reputacional encontrarão eco em um eleitorado cada vez mais descrente, porque o exemplo que vem de cima é aterrador. O concerto lulopetista de corrupção na esfera federal é tão profundo que parece ilibar qualquer danação cá embaixo, incluindo as de seus adversários. Corrupção não exige sigla partidária, muito menos atestado ideológico, e nada é mais pedagógico do que o sucesso da mentira.

O Brasil vai votar no dia 4 de outubro com o ânimo de quem perdeu, independentemente do resultado. A propalada festa da democracia é uma piada, não há fervor em uma campanha tocada a grana, falsidade e clientelismo, não pode haver. Isso nos impõe a tarefa de mudar, de desobedecer ao governo onipresente, de aferir os candidatos por métricas mais morais, mais éticas, mais coadunadas com a república. Temos a oportunidade de derrubar pelo voto essa canalha toda que está aí, e eleger candidatos que demonstrem vontade e capacidade de espantar da mesa brasileira o bando que lá se instalou. Talvez assim devolvamos ao povo a esperança na democracia.

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Valterlucio Campelo

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor  PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.

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