Valterlucio Campelo: A Cuidadora, o Político, o Tecnocrata e o Ariado

Ninguém é obrigado a saber o que é esquerda e direita política, muito menos a conhecer os grandes autores da ciência política, mas, quando se é candidato à cata de votos assumindo rótulos ideológicos, exige-se o mínimo de coerência. Pensei nisso ao ver o candidato Tião Bocalom na sabatina do ac24horas, nesta quinta-feira. 

Não sou psiquiatra para entender cabeça de doido, mas, mesmo assim, fico tentando encontrar razões de coerência no discurso das pessoas que se apresentam tentando convencer o eleitor. Com a oportunidade que nos dá o site ac24horas, que realizou uma série de entrevistas estruturadas ao modo sabatina com os candidatos ao governo do Acre, cá dos meus 50 anos de janela política, observei atentamente cada um deles.

Na ordem pela qual se apresentaram, vi na governadora Mailza Assis, uma espécie de fina membrana envolvendo o vácuo político-ideológico. A sua insistência na frase-bordão “quero cuidar das pessoas” não diz absolutamente nada a não ser um sentimento materno trazido indevidamente à vida pública. O Estado não é mãe, não é babá, não é cuidador. O governo é o ambiente privilegiado onde os eleitos devem, de modo impessoal, gerir os recursos disponíveis no sentido de promover o bem comum. Isto pode ser feito de muitos modos e nessas diferenças é que o gestor pode se situar ideologicamente.

Mailza Assis é um tanto etérea, parece muitas vezes sofrer de um “brain fog” que a impede de, assertivamente, se posicionar abaixo da superfície marqueteira. A cada pergunta, uma platitude como resposta, a cada incômodo sobre o Plano de Governo que “pediu para fazerem”, um gaguejo acompanhado do bordão “cuidar das pessoas” elegantemente desculpado pelos entrevistadores. 

O segundo entrevistado foi o senador Alan Rick, que vindo de três eleições sucessivas, está “escolado”. Por sua própria formação e desenvolvimento profissional, tem uma postura alinhada com o objetivo da entrevista e tem a ideia exata de que está falando para o espectador. Seu posicionamento programático insistentemente inquirido parece claro (responsabilidade fiscal, PPP’s, saída pelo pacífico), enfim, é um homem de direita.

Alan Rick deixa claro que pretende resolver na política questões que são próprias da política e não de um sentimento paternal de bondade. Ciente das dificuldades, remete para a eficiência de gastos e para a atração de investimentos (especialmente no saneamento), a criação do espaço fiscal necessário ao financiamento do gasto público. É essencialmente um POLÍTICO em campanha.

Em terceiro, veio à sabatina o médico Thor Dantas, do PSB. Tido e havido como o representante da esquerda no pleito, o médico minimiza as âncoras ideológicas e o passado em cargos pertencentes a governos do PT, reitera que não é petista, homenageia líderes como Jorge Viana e Binho Marques e traz ao centro uma visão weberiana do Estado. Seu negócio é com a viabilidade técnica e o melhor manejo dos recursos para alcançar o objetivo traçado. Passa fácil de Weber para o gerencialismo moderno.

Em certa medida, é um discurso despolitizante que se poderia resumir em “não é questão de ideologia, é questão de técnica”. Para ele, o governo exige a racionalização no emprego dos recursos como sendo uma organização moderna e por competência: “o governante se legitima por saber técnico, não por carisma ou identidade partidária”. Além disso, muito oportunamente, ao tratar das questões políticas que enfrentaria, meteu uma bordoada em quem tem o lombo fraco: É preciso fazer um governo único (evitar feudos setoriais) e ter autoridade moral. Este foi, talvez, o melhor momento da sabatina. Para definir em uma palavra, Thor é o TECNOCRATA de esquerda, “pero no mucho”.

Por último, nesta quinta-feira, veio o Tião Bocalom. Este é o que dá mais trabalho para entender. Uma hora ele enfia o pé na megalomania, em outra, diz coisas coerentes, mais adiante mete os pés pelas mãos e quer ser de direita antiprivatizante (vá entender o que seja isso), por fim, tira do baú o slogan encardido “produzir para empregar” que ele chama de projeto há 40 anos. Alguém precisa lhe dizer que, atualmente, projeto com perspectiva de 4 anos é de longo prazo.

Como delírio pouco é bobagem, o matemático(?) Bocalom assegura que todas as pesquisas, inclusive a da Quaest, são picaretagens dos adversários.  De vez em quando falando em terceira pessoa, sinal inequívoco de seu narcisismo conhecido, o ex-prefeito se sente ainda mandando na Prefeitura. “A prefeitura é de continuidade, vou falar com o Alysson”. Hein? E se o prefeito não aceitar o puxão de orelhas e mandar o Bocalom catar coquinho no cafezal? 

Bocalom, que aproveitou para “enquadrar” o jornalista Itaan Arruda por duas vezes, acredita que é de direita porque idolatra Bolsonaro. Mas, com passagem “gratuita”, fábrica de leite e ferrenha antiprivatização, se pode dizer que, ideologicamente, é o ARIADO da festa.

Em resumo, penso que tivemos o melhor debate, ou, conjunto de entrevistas, até aqui realizado pela imprensa acreana. Certamente, teremos ainda outras oportunidades e, quem sabe, a chance de vê-los em confronto direto, perguntando uns aos outros, o que seria muito importante para a decisão do eleitor.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor  PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.

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