Vendo o cipoal de números de pesquisas eleitorais que estão sendo divulgadas (algumas sem patrocínio bem definido) fica parecendo que os institutos têm fregueses inominados esperando os resultados encomendados para insuflarem suas preferências. No final das contas, com a disparidade, a credibilidade das ditas vai ao chão.
É importante, antes de comemorar ou lamentar números, saber a METODOLOGIA de cada uma. Por que tem pesquisa que custa uma ninharia (20 contos, né Dênis?), e outras que custam mais de 100 contos? Por causa da metodologia. Enquanto umas são pessoais e exigem viagens dos pesquisadores até o entrevistado em todos os municípios, outras são feitas por telefone e outras mais pela própria web.
Qualquer análise decente precisa levar isso em conta. Em um universo pequeno como o eleitorado acreano ainda mais, porque seus resultados chegam em maior proporção ao eleitorado. Sai uma pesquisa hoje e amanhã praticamente todos os eleitores sabem e discutem os resultados, isso pode levar grande parte a acreditar em uma pesquisa manipulada.
Neste ponto surge a indagação: Qual a metodologia mais susceptível à manipulação? A resposta é: A da web. Em segundo a telefônica e a mais segura é a pessoal. Explico, com a paciência do leitor para termos incomuns. As pesquisas online com amostragem não probabilística (painéis autosselecionados, river sampling, redes sociais) são reconhecidamente as mais suscetíveis a manipulação, tanto deliberada quanto por viés estrutural, pelo seguinte:
- Ausência de frame amostral definido – não há lista oficial de “eleitores online”, o que impede o cálculo de probabilidades de inclusão e inviabiliza a margem de erro clássica.
- Autosseleção – quem responde escolhe participar, concentrando perfis mais engajados ou com viés motivacional.
- Bots e múltiplos perfis – respostas automatizadas ou duplicadas podem distorcer proporções sem detecção imediata.
- Manipulação dirigida – grupos organizados podem “bombardear” um questionário para inflar determinada candidatura.
- Ponderação frágil – o ajuste estatístico (pesos pós-estratificação) depende de premissas que não corrigem viés de cobertura quando este é severo.
Foi por essas e outras que os números do Atlas Intel assustou todo mundo no Acre. Em segundo, vem a pesquisa telefônica (RDD), cuja estrutura carrega os seguintes vieses:
- Viés de cobertura – a amostra é construída sobre blocos de números ativos, o que exclui sistematicamente as populações que não possuem linha fixa, usuários de celular em DDD diferente do domicílio e faixas etárias jovens que usam somente celulares.
- Queda acentuada da taxa de resposta – taxas históricas de 60–80% (décadas de 1970–80) caíram para 5–10% em levantamentos recentes. Isso amplia o viés de não resposta, pois quem atende difere sistematicamente de quem recusa.
- Viés de desejabilidade social – a presença de um entrevistador humano, mesmo por telefone, tende a inflar respostas socialmente aceitas e suprimir intenções estigmatizadas, embora em grau menor que no presencial.
- Efeito de modo – a telefônica captura intenções de voto declaradas em modo auditivo, que diferem sistematicamente de respostas em modo autoadministrado (online/papel) (fenômeno documentado como mode effect).
O tipo de pesquisa menos susceptível à manipulação é a PRESENCIAL. Isto porque o entrevistador é identificado e treinado; a amostra é mais controlada (domicílios sorteados, setores censitários); a interação face a face reduz indução psicológica; é mais caro, mais lento, e mais robusto metodologicamente. A tabela abaixo resume:
Tabela 1 – Vulnerabilidades Metodológicas das Pesquisas
| Método | Amostragem | Vulnerabilidade |
| Presencial domiciliar | Probabilística | Baixa |
| Telefônica (RDD) | Probabilística | Média |
| Online / painel | Não probabilística | Alta |
Recomenda-se, pois, prestar atenção à metodologia e acompanhar cada instituto separadamente, de modo que se possa dizer: Dentro de tal metodologia, os números tiveram tal variação. Isso endossa uma percepção de tendência menos ruidosa.
Curiosamente, creiam, às vésperas do pleito as pesquisas tenderão ao encontro em margem mínima próxima do resultado do pleito, não querem perder credibilidade mantendo números afastados da realidade. O passado de fantasia numérica fica enterrado como se não houvesse ontem. Mas houve, e quem está atento à manipulação e conhece um pouquinho o cantar dos passarinhos sabe o que aconteceu e a quem serviram determinadas pesquisas contrárias ao senso comum.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.


