A carta de Flavio Bolsonaro ao povo brasileiro é sincera. Entrega que pretende fazer a disputa política de fora do Brasil. Está percorrendo o script de Maria Corina Machado na Venezuela e de muitos outros antes dela. Mas, é ingênua. Flavio desconsidera dois pontos que são fundamentais.
O primeiro é que ele não tem o tamanho do 60 milhões de votos que recebeu das urnas, a liderança que reivindica como candidato da oposição não lhe pertence exatamente. Quero dizer, ele não é Jair Bolsonaro, mas seu preposto com missão possível, porém inviabilizada pelo sistema assim como em 2022.
Compreendo que tenha feito o certo ao se mandar. Certamente seria preso mais cedo ou mais tarde se permanecesse no Brasil, ainda mais a partir do próximo ano, sem mandato parlamentar. Seu fim seria o mesmo do pai, ou seja, seria transformado em um trunfo na manga do sistema que o derrotou. Da cadeia não lideraria coisa nenhuma.
Conseguirá o Flavio Bolsonaro aglutinar e mover a partir dos EUA a direita que o apoiou nas eleições? Talvez inicialmente, enquanto durar o rescaldo das eleições e a depender do que faça o governo Trump. Lembremos que Flávio não é nem nunca foi um líder de massas, seus mandatos todos foram conseguidos na esteira do sobrenome. Sendo assim, não há um “flavismo” a considerar, logo, a despeito da votação que teve, sua liderança, decorrente do prestígio popular do pai, é frágil.
Aí entra o segundo ponto. Sendo um líder momentâneo indicado pelo pai, seu exílio deixa um vácuo muito importante, que fatalmente será preenchido pelos políticos empoderados no Congresso e em estados importantes como São Paulo. Todo aquele grupo que se reuniu em torno da sua candidatura já se fraciona para conquistar o comando da direita visando a luta política a partir de 2027 e a conquista do poder em 2030. Alguns até com discursos conciliatórios.
Neste sentido, vejamos as declarações do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Sua sinalização já nas primeiras horas foi no sentido de aceitar a derrota e seguir a vida. O que significa isso, senão um movimento de acomodação e esfriamento das correntes internas? Isso não bate com a carta de Flávio Bolsonaro. Os tempos são outros, nem as lideranças nacionais nem o povo esperarão a “volta redentora” de Flávio.
Com as negociações do Congresso, cogitemos que de um modo ou de outro, Jair Bolsonaro saia da cadeia. Mas em que situação? A que preço? Terá condições físicas, jurídicas e políticas de se recolocar no jogo? No mínimo o sistema se assegurará de que não seja elegível, ainda que possa andar livremente. Vai ungir outro Bolsonaro e repetir o drama?
Crucial em tudo isso é a eleição para as duas casas no Congresso, especialmente no senado, que tem a atribuição de processar pedido de impeachment de ministros do STF. Se a direita eleger um substituto a Alcolumbre, seguramente esse bonde andará e pode atropelar Alexandre de Moraes, pelo menos. Se o acordo entre governo e centrão prosperar, Alcolumbre permanece e fica tudo como está, ou seja, o sistema se fortalece, uns e outros se abraçam e a sina perversa lulopetista toma fôlego.
Enquanto isso, a economia, que não espera resultado do chafurdo político, produzirá seus efeitos – dívida pública nas alturas, nenhum espaço para investimentos, dificuldade de custeio da máquina pública, instabilidade, fuga de capitais, promessas desfeitas e crise política. Muitos grandes economistas já perceberam a contratação de uma recessão para 2027-2028 e antecipam posições que a fortalecem. Ninguém está a fim de pagar pra ver.
Falta ainda nesta equação, um dado importante que é o movimento do grande irmão do norte, os EUA. Donald Trump é sabidamente um líder instável, não gera segurança em quem depende de sua atuação que tanto pode ir para um lado como para o outro, acelerar ou pausar. Sabemos, entretanto, que Lula da Silva é capaz de qualquer concessão para manter o Brasil sob o regime implantado. Daí, não nos surpreendamos se Trump simplesmente der de ombros para Flávio. Assim como pode endurecer a relação a partir do Marco Rubio, este sim, fincado em uma posição antiesquerdista.
Este é o cenário mais fácil de projetar com as informações que temos. Ninguém possui o controle das variáveis que podem agir com maior ou menor impacto, nem de outras emergências que possam surgir. A rigor, estamos como aquele sujeito que perdeu o contato da bengala com o chão sob fog londrino. Ele ficou parado esperando que a neblina se dissipasse, desconfiando que a qualquer passo poderia cair em uma vala. Quando clareou, percebeu que apenas havia quebrado a ponta da bengala.
Não há, por enquanto, como sabermos. Alguns ficarão quietos na planície esperando que o sol venha logo e dissipe a neblina que cega e enche o ar de mau cheiro. Outros darão passos à frente apostando que conhecem o caminho. Haverá também os que retrocederão passo a passo pelo caminho que vieram. Quem fará o certo?
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.


