O mercado do boi gordo começou a semana em clima de ajuste. Depois de meses sustentado por oferta mais curta, reposição firme e bom desempenho das exportações, a arroba voltou a sentir a pressão da indústria frigorífica, que passou a testar preços mais baixos em diferentes praças pecuária do país.
Em São Paulo, a queda mais simbólica veio no chamado boi-China, animal jovem, rastreado e com padrão exigido para exportação ao mercado chinês. Segundo levantamento da Scot Consultoria, a categoria recuou R$ 3/@ nesta segunda-feira (27/4), passando para R$ 365/@, no prazo e valor bruto. Já o boi comum permaneceu em R$ 363/@, enquanto a vaca gorda foi cotada a R$ 332/@ e a novilha gorda a R$ 342/@.
A pressão, no entanto, não se limita ao mercado paulista. De acordo com a Safras & Mercado, frigoríficos passaram a indicar maior conforto nas escalas de abate, o que abriu espaço para tentativas de compra em patamares inferiores. A consultoria aponta que a piora sazonal das pastagens no segundo trimestre tende a reduzir a capacidade de retenção dos pecuaristas, aumentando a necessidade de venda dos animais.
Pastagens começam a pesar na decisão do pecuarista
O movimento de baixa aparece com mais força em regiões onde o estresse hídrico já compromete a qualidade das pastagens. Conforme análise da Safras & Mercado, Goiás e Minas Gerais estão entre os estados em que a pressão é mais evidente, justamente pela menor capacidade de retenção do gado no campo.
Por outro lado, estados como Mato Grosso, Pará, Tocantins e Rondônia ainda mostram um ambiente mais equilibrado. A regularidade das chuvas em abril ajudou a manter as pastagens em melhores condições, dando ao produtor maior margem para segurar os animais e evitar vendas forçadas.
Esse contraste regional explica por que o mercado não desabou de forma uniforme. A pressão existe, mas ainda encontra resistência onde o pecuarista consegue alongar a oferta.
Arroba do boi gordo pode ir abaixo de R$ 350?
O ponto de atenção para maio está justamente na tentativa da indústria de buscar compras abaixo de R$ 350/@ na praça-base paulista. Segundo Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, a combinação entre maior saída de animais no segundo trimestre, pastagens em declínio e escalas mais confortáveis deve incentivar os frigoríficos a pressionarem ainda mais os preços nas próximas semanas.
Na sexta-feira (24), a referência média da arroba já havia registrado queda semanal em importantes praças: São Paulo caiu para R$ 362,08/@, Goiás para R$ 344,64/@, Minas Gerais para R$ 352,27/@, Mato Grosso do Sul para R$ 352,77/@ e Mato Grosso para R$ 362,91/@.
Exportação ajuda, mas não elimina a pressão
O fator que ainda impede uma queda mais agressiva é o desempenho das exportações. Em abril, até o momento analisado pela Secex, o Brasil já havia embarcado 153,353 mil toneladas de carne bovina fresca, congelada ou refrigerada, com receita de US$ 942,105 milhões. A média diária de receita avançou 29,2% em relação a abril de 2025, enquanto o preço médio da tonelada subiu 22,1%.
Mesmo assim, o mercado do boi gordo acompanha com atenção a cota de exportação para a China, fixada em 1,1 milhão de toneladas, com excedente sujeito a tarifa de 55%. A avaliação de mercado é que essa cota pode ser totalmente utilizada entre junho e julho, fator que pode mexer no ritmo das compras e na estratégia das indústrias exportadoras.
Atacado segue acomodado
No mercado atacadista, a carne bovina também não mostra força para grandes reajustes. A segunda quinzena do mês costuma ter consumo mais fraco, e a carne bovina ainda enfrenta concorrência de proteínas mais baratas, especialmente o frango.
Segundo a Safras & Mercado, os cortes permaneceram estáveis, com o quarto dianteiro a R$ 23,50/kg, o quarto traseiro a R$ 28,50/kg e a ponta de agulha a R$ 21,50/kg.
Mercado do boi gordo: O que esperar agora?
O mercado entra em maio em um momento de disputa. De um lado, a indústria tenta aproveitar escalas mais confortáveis e a piora sazonal das pastagens para derrubar as referências. De outro, a oferta ainda não é abundante em todas as regiões, a reposição segue valorizada e as exportações continuam dando suporte ao mercado.
Por isso, a tendência mais provável é de pressão baixista no curto prazo, mas com quedas seletivas e dependentes da condição das pastagens em cada região. Para o pecuarista, o momento exige atenção redobrada: a janela de venda, a condição do pasto e o peso dos animais podem fazer diferença direta na rentabilidade.



