O leilão de um microlote geisha em Carmo de Minas revela que o Brasil já tem maturidade para um mercado de café de luxo, de assinatura e de edição limitada.
Quanto uma pessoa estaria disposta a pagar por uma xícara de café? E se essa xícara custasse R$ 600? O que parece exagero virou realidade no dia 1º de maio, quando um microlote de apenas 70 gramas de café arábica especial, da variedade geisha, foi arrematado por R$ 3.000 em um leilão realizado nas redes sociais, com duração de 24 horas. O produto, produzido, colhido manualmente grão a grão e processado pelo produtor Luiz Paulo Dias Pereira Filho, na Fazenda Harus, em Carmo de Minas (MG), não era uma commodity qualquer: era um café de assinatura, resultado de seleção manual rigorosa e de uma pontuação acima de 90 pontos na escala sensorial da Specialty Coffee Association (SCA), que vai de zero a 100.
O próprio produtor admite que o resultado o surpreendeu. Luiz Paulo conta que, após selecionar manualmente os frutos e analisá-los em laboratório, confirmou a nota excepcional e decidiu criar o microlote como parte do “Projeto Harus by Luiz Paulo”. O leilão foi anunciado nas redes sociais e, no final, o valor batido superou em muito suas expectativas iniciais. Segundo ele, imaginava alcançar pouco mais de R$ 100 pelo lote. O número final foi 30 vezes maior.
Para além da surpresa pessoal, Luiz Paulo enxerga o resultado como um sinal de transformação no modo como o café é percebido no Brasil. O produto, historicamente tratado como commodity de exportação em massa, começa a ganhar contornos de artigo de luxo. O produtor compara o movimento ao universo do vinho, citando os winemakers que cultivam, selecionam e colhem suas próprias uvas para criar rótulos exclusivos. Em sua visão, o café de assinatura, firmado por um “coffee maker”, pode seguir caminho semelhante, com edições raras e megaespeciais dirigidas a consumidores dispostos a pagar pelo excepcional.
O comprador do microlote foi Hugo Passos Swerts Jr., da corretora Café Responsável. Para ele, o lote vai além do valor financeiro: trata-se da aquisição de uma raridade produzida por quem ele chama de “lenda viva do café especial”. Swerts destacou que teve acesso a todos os detalhes do processo de colheita e pós-colheita que levaram o café a atingir aquela pontuação, e que pretende compartilhar a experiência de degustação com clientes e parceiros, tratando o produto como uma preciosidade.
A referência ao status de lenda não é apenas retórica. Luiz Paulo Dias Pereira Filho é reconhecido formalmente como a primeira lenda mundial do café especial do Brasil, com certificação tanto da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) quanto da Alliance for Coffee Excellence (ACE), entidade internacional. A honraria é concedida a produtores que demonstram qualidade excepcional e consistente ao longo dos anos, com inovação e dedicação comprovadas por sucessivas premiações.
Entre os reconhecimentos que construíram essa trajetória estão os prêmios Cup of Excellence, competição fundada em 1999 no Brasil e considerada o “Oscar do Café”, cujos direitos de realização no mundo são administrados pela ACE. A competição é referência global na avaliação de qualidade e serve como vitrine para os melhores cafés produzidos em diferentes países. Conquistar esse prêmio repetidamente é o que distingue as lendas dos demais produtores.
Mas o reconhecimento das lendas, segundo a própria ACE, não se limita à qualidade do produto. A entidade destaca que esses produtores também exercem papel de liderança em suas comunidades, promovendo impacto social duradouro por meio de programas educacionais, projetos de sustentabilidade e iniciativas de mentoria voltadas à próxima geração de cafeicultores. É esse conjunto de excelência técnica, inovação e responsabilidade que, cada vez mais, fundamenta o valor de um café que vai muito além da xícara.


