A forte expansão das exportações de carne bovina brasileira nos últimos anos tem alimentado um debate recorrente: afinal, vender mais carne para o exterior prejudica o abastecimento interno e encarece o produto para o consumidor brasileiro? Um estudo da Scot Consultoria mostra que a resposta não é tão simples quanto parece.
Segundo o analista de mercado Pedro Gonçalves, da Scot Consultoria, os dados históricos indicam que o crescimento das exportações ocorreu acompanhado de um avanço ainda maior da produção nacional, o que permitiu ampliar simultaneamente as vendas externas e a disponibilidade de carne para o mercado doméstico.
Exportação de carne bovina cresceu quase 58 vezes em 29 anos
De acordo com o levantamento, entre 1997 e 2025 a produção brasileira de carne bovina cresceu 232,8%, enquanto as exportações avançaram impressionantes 5.791%. Mesmo diante dessa expansão acelerada das vendas externas, a disponibilidade interna de carne bovina aumentou 105,7% no período.
Para Pedro Gonçalves, isso demonstra que a exportação atuou como um estímulo para o crescimento da cadeia produtiva.
“A exportação de carne bovina é uma espécie de motor para aumento de produção. A demanda externa estimula a produção e os ganhos beneficiam a cadeia através do aumento da produtividade, não prejudicando a disponibilidade interna”, destaca o analista.
O estudo também mostra que a importação de carne bovina teve pouca relevância na composição da oferta nacional, devido ao volume reduzido quando comparado à produção e às exportações brasileiras.
Ganhos de produtividade mudaram a pecuária brasileira
Um dos principais fatores que explicam esse crescimento simultâneo da produção e das exportações está no avanço tecnológico da pecuária nacional.
Segundo a Scot Consultoria, a atividade atingiu patamares de eficiência que eram impensáveis há algumas décadas. Atualmente, em um período de 10 anos, podem ser abatidos até três bovinos com o mesmo peso que anteriormente gerava apenas um animal terminado. Em sistemas mais intensivos, esse número pode chegar a cinco animais.
Esse ganho de produtividade permitiu ao Brasil ampliar sua posição como maior exportador mundial de carne bovina sem comprometer o abastecimento interno.
Quando a exportação passa a ser vista como “vilã”
Apesar dos benefícios observados ao longo das últimas décadas, a Scot alerta que existem momentos em que a exportação pode gerar pressão sobre os preços domésticos.
Isso ocorre principalmente em ciclos de menor oferta de animais para abate, situação que tende a acontecer quando os pecuaristas entram em fase de retenção de matrizes para reconstrução do rebanho.
Nesses períodos, a produção cresce em ritmo mais lento e o mercado externo passa a disputar a mesma matéria-prima disponível para abastecer o mercado interno.
“É justamente nesse ponto que surge a percepção da exportação como ‘vilã’. Não por reduzir estruturalmente a oferta, mas por intensificar a disputa por um volume momentaneamente menor de carne bovina”, explica Pedro Gonçalves.
Segundo a análise, essa concorrência influencia diretamente os preços, uma vez que frigoríficos exportadores precisam competir pela compra do gado disponível.
Impacto chega primeiro à arroba e depois ao consumidor
Outro aspecto destacado pela Scot Consultoria é a relação entre a demanda internacional e o preço da arroba do boi gordo.
De acordo com o estudo, quando as exportações estão aquecidas, os preços da arroba tendem a permanecer sustentados mesmo em momentos de consumo doméstico mais fraco.
Por outro lado, o repasse desse aumento para os supermercados nem sempre ocorre na mesma velocidade.
“Em um ambiente de renda pressionada, aumentos na cotação da arroba podem resultar em compressão das margens da indústria frigorífica e do varejo, limitando ajustes de preços mais intensos da carne no mercado interno”, destaca o analista.
Entretanto, quando a oferta de animais se torna mais restrita, o espaço para repasse ao consumidor aumenta, pressionando os preços da carne bovina e incentivando a substituição por proteínas mais baratas, como carne de frango e suína.
O que esperar para 2026?
A Scot Consultoria avalia que o mercado de carne bovina em 2026 deverá apresentar características diferentes das observadas nos anos recentes de forte expansão da oferta.
O principal motivo é a retomada da retenção de fêmeas, movimento que reduz o volume de animais destinados ao abate e desacelera o crescimento da produção. Ainda assim, o volume produzido deverá permanecer entre os maiores da série histórica.
Ao mesmo tempo, a demanda internacional segue firme, especialmente devido à continuidade das compras da China.
“Não há indicativos de retração relevante nas exportações brasileiras”, afirma o estudo.
Nesse cenário, a exportação deixa de ser apenas um motor de crescimento da produção para assumir papel cada vez mais importante na formação dos preços internos.
Exportação de carne bovina é amiga ou inimiga?
A conclusão da Scot Consultoria é que a exportação não pode ser classificada simplesmente como amiga ou inimiga do mercado brasileiro.
Os dados mostram que ela foi fundamental para impulsionar investimentos, produtividade e crescimento da produção nas últimas décadas. Porém, em momentos de oferta mais apertada, pode contribuir para elevar os preços da carne ao aumentar a concorrência pela matéria-prima disponível.
“Mais do que determinar o volume produzido, o desempenho das exportações em 2026 será decisivo para definir o nível de preços da carne bovina no Brasil e o grau de acesso do consumidor doméstico ao produto”, conclui Pedro Gonçalves.
Fonte: Estudo “Exportação de carne bovina: amiga ou inimiga?”, elaborado por Pedro Gonçalves, analista de mercado da Scot Consultoria.


