A dinâmica de competitividade no agronegócio global está passando por uma mudança estrutural. A combinação entre novos modelos de negócio, maior velocidade de operação e estratégias comerciais mais flexíveis tem reduzido a dependência exclusiva de escala e tradição como fatores determinantes de liderança de mercado.
A avaliação é de Felipe Treitinger, CEO e fundador da Cumbre, que compara a transformação recente do setor agro com mudanças ocorridas na indústria de mídia e entretenimento, especialmente na transmissão de grandes eventos esportivos.
Disputa por audiência na mídia serve de analogia para o agro
Segundo Treitinger, a entrada de plataformas digitais como a CazéTV na transmissão da Copa do Mundo demonstrou que mercados historicamente concentrados podem ser rapidamente reconfigurados quando novos entrantes adotam formatos mais ágeis e modelos de distribuição diferentes.
No cenário esportivo, a predominância de grandes grupos de mídia foi desafiada por iniciativas digitais que ganharam espaço com linguagem própria, transmissão multiplataforma e maior proximidade com o público.
Para o executivo, o agronegócio vive um movimento semelhante, no qual a inovação não depende apenas de escala financeira ou tradição, mas também de capacidade de adaptação e leitura de mercado.
Multinacionais do agro enfrentam novos competidores
No setor agrícola, empresas globais como Bayer, BASF, Syngenta e Corteva construíram sua liderança ao longo de décadas, com forte base em pesquisa, desenvolvimento de moléculas e inovação tecnológica.
No entanto, nos últimos anos, companhias como Rainbow, CCAB, AgriConnection e Tecnomyl passaram a ampliar sua participação em segmentos específicos, antes altamente concentrados.
Esse avanço ocorre principalmente em mercados de defensivos e insumos agrícolas, onde a competitividade passou a ser influenciada não apenas pela inovação em pesquisa, mas também por estratégias comerciais mais flexíveis e estruturas operacionais mais enxutas.
Agilidade e modelos comerciais ganham relevância
De acordo com a análise de Treitinger, o crescimento desses novos players está mais relacionado à eficiência operacional e à velocidade de resposta ao mercado do que ao volume de investimento em pesquisa e desenvolvimento.
A capacidade de adaptação a diferentes realidades regionais, a oferta de soluções mais acessíveis e a proximidade com o produtor têm sido fatores decisivos para a expansão dessas empresas.
Esse movimento indica uma mudança de paradigma no agronegócio, em que a competitividade passa a ser influenciada por múltiplos fatores além da escala produtiva.
Tamanho segue relevante, mas não garante liderança
Apesar da entrada de novos concorrentes, o especialista destaca que grandes empresas continuam exercendo papel central no desenvolvimento tecnológico do setor. No entanto, o cenário atual exige maior atenção às mudanças estruturais do mercado.
A principal transformação está no fato de que o tamanho, por si só, já não assegura participação de mercado ou liderança de forma automática.
“A história mostra que empresas consolidadas normalmente não perdem mercado porque deixam de ser grandes, mas porque deixam de perceber que o mercado mudou”, afirma Treitinger.
Agronegócio entra em nova fase de competição global
O avanço de novos modelos de negócio indica que o agronegócio caminha para uma fase mais dinâmica e competitiva, em que inovação, agilidade e capacidade de adaptação ganham peso crescente nas estratégias empresariais.
Nesse contexto, a disputa por mercado tende a ser cada vez mais influenciada pela eficiência operacional e pela proximidade com o produtor rural, redefinindo o equilíbrio entre grandes corporações e novos entrantes no setor.


